O argumento de que os fogos são uma catástrofe natural que podemos combater, mas não evitar; que são o resultado do aquecimento global e que, por isso, nos afligem a nós como a todos os outros; que este ano está a ser um dos mais quentes e secos desde que há registos e, portanto, nada a fazer; que só através da ação concertada do Mundo poderemos travar esta troika de calor, fogo e seca - são argumentos verdadeiros, mas esgrimidos de forma falaciosa.

Na verdade, e em proporção (tendo em conta a área ardida e o tamanho do país), Portugal volta este ano a arder mais do que todos os outros na União Europeia. Por outro lado, só nos 22 anos que já leva o século XXI já houve pelos menos dez em que a área ardida foi superior à deste. E só com estes dois dados desabam, pelo menos parcialmente, os argumentos sobre a globalidade da tragédia e excecionalidade do ano. Argumentos que têm servido para reforçar a narrativa da desresponsabilização.

Também é verdade, por outro lado, que de pouco ou nada serve gastar todas as energias a atacar quem tem a responsabilidade da guerra ao fogo, seja ao nível operacional ou ao nível político. No essencial, e apesar de alguns passos em falso, fazem o que podem, num país de baixo orçamento em que os meios de combate serão sempre escassos. O que é preciso questionar é a política agrícola e florestal. É o despovoamento e a falência do Interior e o que (não) se faz para o reverter. E nestes casos pedir contas aos dirigentes políticos.

Olhando de novo só para o que aconteceu nestes 22 anos do século XXI, destacam-se dois períodos particularmente negros: o triénio 2003/2005, com quase 894 mil hectares destruídos pelo fogo; e o biénio 2016/2017, com mais de 729 mil hectares transformados em cinzas (este ano vamos nos cem mil hectares). Fizeram-se muitas promessas no rescaldo desses anos. Formaram-se comissões de peritos. Fizeram-se investigações e estudos. Produziu-se legislação em quantidade. E gastaram-se muitos milhões. Até ao verão seguinte.

QOSHE - Até ao verão seguinte - Rafael Barbosa
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Até ao verão seguinte

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27.08.2022

O argumento de que os fogos são uma catástrofe natural que podemos combater, mas não evitar; que são o resultado do aquecimento global e que, por isso, nos afligem a nós como a todos os outros; que este ano está a ser um dos mais quentes e secos desde que há registos e, portanto, nada a fazer; que só através da ação concertada do Mundo poderemos travar esta troika de calor, fogo e seca - são argumentos verdadeiros, mas esgrimidos de forma falaciosa.

Na verdade, e em proporção (tendo em conta........

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