1. Numa Europa pressionada pela guerra na Ucrânia e pelos seus efeitos nos preços da energia e no custo das nossas vidas, passou quase despercebido que uma parte da última Cimeira Europeia foi dedicada à ameaça chinesa.

Foi apenas um dia antes da entronização do novo imperador e o diagnóstico foi unânime: a China está cada vez mais agressiva, na frente económica, como na frente militar. Como resumiu o ex-primeiro-ministro italiano Mário Draghi, se os políticos europeus foram "indiferentes, indulgentes e superficiais" no que diz respeito às ameaças do regime russo, bom seria que não se repetissem os erros com o regime chinês.

2. A Europa discutiu, mas não começou sequer a tentar entender-se quanto ao que fazer. Mas do lado de lá do Atlântico, os EUA já deram início às hostilidades. Começando por aquilo que a China (e o Mundo) mais precisa para se desenvolver: os microchips. Como escreveu Farhad Manjoo no jornal "The New York Times", são cruciais para o funcionamento de quase tudo o que é importante no mundo moderno, incluindo os nossos computadores e smartphones, mas também para o armamento, a vigilância e os sistemas de inteligência artificial. E é aqui que entra a China, que gasta mais dinheiro a importar microchips do que petróleo, enquanto tenta desenvolver uma indústria autónoma de semicondutores. Com o rígido boicote americano aos materiais, à tecnologia e aos cérebros humanos que os produzem levará muitos anos.

3. Tal como os europeus, também os americanos se anteciparam à entronização de Xi Jinping. E os sinais políticos que chegam de Pequim não deviam deixar ninguém indiferente. A segunda maior economia do Mundo está a passar de um regime político de partido único (o que já era tenebroso, para os nossos padrões) para uma ditadura unipessoal (que evolui sempre para uma escalada da violência, o que é assustador). Não é por acaso que os super-ricos chineses estão a preparar planos de fuga (para as suas famílias e para os seus capitais). Vem aí mais uma guerra. E o facto de começar pelos microchips é mais um sinal de que vai ser muito dura.

*Diretor-adjunto

QOSHE - A guerra com a China já começou - Rafael Barbosa
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A guerra com a China já começou

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26.10.2022

1. Numa Europa pressionada pela guerra na Ucrânia e pelos seus efeitos nos preços da energia e no custo das nossas vidas, passou quase despercebido que uma parte da última Cimeira Europeia foi dedicada à ameaça chinesa.

Foi apenas um dia antes da entronização do novo imperador e o diagnóstico foi unânime: a China está cada vez mais agressiva, na frente económica, como na frente militar. Como resumiu o ex-primeiro-ministro italiano Mário Draghi, se os políticos europeus foram "indiferentes, indulgentes e superficiais"........

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