Tchekhov escreveu "Um drama na caça". Com a maestria habitual, retrata aquilo que muitos analistas em Economia parecem acusar - a necessidade de, nas suas análises, depurarem as próprias culpas. Culpas das leituras enviesadas feitas no passado, da cedência a grupos de opinião, a grupos de interesse, a visões deformadas.

Assim, como no atual drama da inflação, todos parecem viver o primeiro ato. As personagens apresentam-se, enganam-se e, sem que o percebam, tudo fazem para apressar o destino. Atira-se combustível para o problema sem olhar para os problemas estruturais. Engana-se o problema maior com soluções pontuais.

Depois, no segundo ato, perceber-se-á que a solução provisória até acelerou a inflação de produtos que estavam aparentemente adormecidos, como que chamando à ação personagens escondidas que aparecem para, também elas, apressarem o desfecho. O problema maior continuará, lá, silencioso, à espera da oportunidade para o golpe crítico.

Finalmente, no terceiro ato, haverá erros confessados, crimes declarados, suspeitos identificados, culpados validados. Tchekhov escreveu "Um drama na caça" para mostrar que muitos dos erros não o eram, muitos dos crimes declarados estavam mal descritos, muitos dos suspeitos foram processados invalidamente e os culpados eram, afinal, inocentes.

Tudo isto parece uma luta canhota contra a inflação. Canhota porque de curto prazo. As causas estruturais, os verdadeiros culpados, lá longe, continuarão a lucrar oito a dez anos depois, como o verdadeiro culpado neste drama tchekhoviano. Enquanto isso, os acusados de hoje - a subida dos salários, o consumo pós-pandémico, o guarda-chuva da guerra na Ucrânia, continuarão a ser apontados e engavetados nos sítios certos. Em síntese, a vítima somos sempre nós.

*Professor da Universidade do Minho

QOSHE - Tchekhov ressuscitado - Paulo Reis Mourão
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Tchekhov ressuscitado

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22.09.2022

Tchekhov escreveu "Um drama na caça". Com a maestria habitual, retrata aquilo que muitos analistas em Economia parecem acusar - a necessidade de, nas suas análises, depurarem as próprias culpas. Culpas das leituras enviesadas feitas no passado, da cedência a grupos de opinião, a grupos de interesse, a visões deformadas.

Assim, como no atual drama da inflação, todos parecem viver o primeiro ato. As personagens apresentam-se, enganam-se e, sem que o........

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