A economia das migrações levanta muitas questões éticas. Desde logo, queremos receber o imigrante ou queremos só receber o seu trabalho? Queremos receber a pessoa - com as suas virtudes e defeitos - ou só queremos receber o contribuinte? Queremos adotá-lo como cidadão pleno ou queremos só temporariamente a sua estadia?

Há dias, numa discussão académica, outros colegas falavam de algo curioso. Poucos, tirando os que têm um espírito verdadeiramente acolhedor e que conseguem ver raridades no horizonte, gostam de uma imigração empobrecida. A ideia-base é de que gostamos de receber imigrantes que nos pareçam produtivos, bem-dispostos e saudáveis. Assim como vários modelos de crescimento económico mostram o ganho líquido em atrair uma imigração qualificada também modelos duais concluem que as comunidades acolhedoras de outras comunidades que têm défices de produtividade, de integração ou de níveis de saúde precisam de estruturas sociais e económicas de acolhimento robustas. Na infeliz expressão de um economista da década de 1930, ninguém quer que o seu país vire uma sopa-dos-pobres. Mas, recentemente, vários trabalhos têm sido publicados que mostram como atrair só uma imigração milionária ("visto gold") pode ser pouco interessante. Como na história da passagem pelo Egito do rei do Mali no século XIV, quando os imigrantes são muito mais ricos do que nós, pressionam os preços, mudam o valor da moeda e, sem querer, provocam revoluções mentais e culturais.

Isso é mau? Não pode ser isso marca de desenvolvimento? Aliás a riqueza do imigrante não há de ser a medida da sua esperança em vez do peso da bagagem? Como eu escrevia no início do texto, no fundo, as migrações serão sempre uma profunda questão da ética. Serão sempre fator de desenvolvimento. Venha a bagagem numa mala de cartão, numa pen ou seja só um passaporte.

*Professor de Economia da Universidade do Minho

QOSHE - Nós mais os outros - Paulo Reis Mourão
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Nós mais os outros

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26.08.2022

A economia das migrações levanta muitas questões éticas. Desde logo, queremos receber o imigrante ou queremos só receber o seu trabalho? Queremos receber a pessoa - com as suas virtudes e defeitos - ou só queremos receber o contribuinte? Queremos adotá-lo como cidadão pleno ou queremos só temporariamente a sua estadia?

Há dias, numa discussão académica, outros colegas falavam de algo curioso. Poucos, tirando os que têm um espírito verdadeiramente acolhedor e que........

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