Há poucas coisas piores do que um momento marcado para celebrações e discursos de fim de ano. Com motivos de sobra para tentar limpar uma imagem que até aqui fazia o pleno, os portugueses preparam-se para receber a mensagem de Marcelo Rebelo de Sousa com um grau de desconfiança que nunca sentiram pela mais alta figura do Estado. Talvez pela forma como se resguardou até falar, para logo depois desbaratar argumentos em contradição e omissões, o presidente da República irá dirigir-se ao país na mensagem de fim de ano com o índice de popularidade mais baixo de que há memória e um sentimento geral de desconfiança que já nem alguma benevolência disfarça.

O desgaste de uma presidência de afectos é esse mesmo, afectivo: as pessoas não suportam sentir-se traídas. É um pouco a ideia de que todos poderiam fazer algo de errado ou menos lícito menos alguns, os inimagináveis. Marcelo é um deles. Como quem vive pela imprensa, morre pela imprensa, Marcelo é vítima dos afectos que criou. Conquistou pelo coração e pode morrer por ele.

Se António Costa era irritantemente optimista, Marcelo não pode correr esse risco quando se dirigir ao país pela última vez no ano. Tratará de ser um factor de união, agregador, tentando recapturar um élan de outrora que a mácula do caso das gémeas afastou, baptizado de pecado original. Ninguém esquece que acelerou uma crise pela decisão de desfazer um ciclo político na sombra de um parágrafo que dificilmente ficará para a História senão como um álibi ou lotaria de renovação forçada da elipse de poder do PS. Lugares-comuns para um mesmo ciclo.

Ainda longe das eleições de 10 de Março, Marcelo saberá que é tempo de cumprir as suas promessas, deixando o tempo que falta para os partidos. Qualquer solução indicada por Marcelo é agora um travão de crescimento para os visados. Para além de que o factor presidencial deve exercer poupança pela previsível imprevisibilidade do novo ciclo político. Entre dois blocos opostos mas sem uma argamassa firme que cole a vertigem da extrema-direita ao poder, Marcelo ainda poderá ser chamado à responsabilidade de vedar o caminho aos aventureirismos que impulsionou este ano. Talvez assim seja capaz de concluir o seu mandato presidencial sem convocar novamente eleições antecipadas.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

QOSHE - Vítima pelos afectos - Miguel Guedes
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Vítima pelos afectos

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30.12.2023

Há poucas coisas piores do que um momento marcado para celebrações e discursos de fim de ano. Com motivos de sobra para tentar limpar uma imagem que até aqui fazia o pleno, os portugueses preparam-se para receber a mensagem de Marcelo Rebelo de Sousa com um grau de desconfiança que nunca sentiram pela mais alta figura do Estado. Talvez pela forma como se resguardou até falar, para logo depois desbaratar argumentos em contradição e omissões, o presidente da República irá dirigir-se ao país na mensagem de fim de ano com o índice de popularidade mais baixo de que há memória e um........

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