Após eleições, a segmentação do voto diz-nos muito sobre os reais benefícios de extremar posições na disputa eleitoral, sobre os temas que constroem a verdadeira agenda das urnas e o elemento diferenciador que alavanca vitórias à justa ou por curta margem.

A presença de demagogos e proto-ditadores em boletins de voto, cada vez mais comum, tem feito as delícias dos caçadores de fantasmas nas campanhas eleitorais em Itália, Israel, Brasil e EUA, só para abraçar exemplos recentes. Enquanto na Europa e no Médio Oriente recrudescem episódios fascistas que sedimentam poderes ultranacionalistas e retiram o esqueleto de Mussolini da campa e o corpo inteiro do extremismo de Ben Gvir do armário, a América inflectiu à Esquerda, mesmo no contexto de uma crise aguda e de taxas de rejeição muito assinaláveis dos seus líderes. A eleição de Lula da Silva no Brasil e as eleições intercalares americanas de Joe Biden são a prova de que a Direita até pode disputar eleições à última casa decimal, mas fica bem mais próxima da derrota quando pretende ir para a batalha com candidatos radicais.

A opção da Direita pelo transtorno emocional do eleitorado brasileiro, tentando arregimentar um país com cursos de doutrina evangélica, ao arrepio do reconhecimento dos crimes ecológicos e do retrocesso civilizacional de valores, permitiu que os direitos reprodutivos e as alterações climáticas fossem factores decisivos para segurar a diferença, ainda assim curta, que derrotou Bolsonaro. O voto feminino em Lula, sempre superior e consistente em todas as sondagens, sustenta boa parte dos dois milhões de votos que lhe entregaram as chaves do Planalto. Faltou inteligência emocional ao patriotismo negacionista de bandeira para perceber que as causas identitárias podem não ganhar eleições mas, seguramente, afastam muitos mais do que aqueles que convertem. O clima de doideira em negação que se instalou nas ruas do Brasil, demolido dia a dia pela verdade dos factos, não deixa de ser uma demonstração do quão longe foram os responsáveis políticos que julgaram poder ganhar eleições pela hipnose colectiva de meio povo.

A vitória Republicana nas eleições intercalares dos EUA anunciava-se com estrondo. A onda vermelha do elefante varreria os democratas do Senado e da Câmara dos Representantes, sem apelo nem agravo, dizia-se. Afinal, a tangente acompanhou os amargos de boca e assistimos à tentativa de culpabilização de Trump pela sua participação activa na campanha de muitos candidatos republicanos. Tal como no Brasil, as mulheres, os direitos reprodutivos e as alterações climáticas fizeram boa parte da diferença que colocou os elefantes vermelhos literalmente no meio da sala. "É a economia, estúpido!", mas afinal há mais.

Músico e jurista

QOSHE - Transtorno e hipnose em eleições - Miguel Guedes
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Transtorno e hipnose em eleições

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11.11.2022

Após eleições, a segmentação do voto diz-nos muito sobre os reais benefícios de extremar posições na disputa eleitoral, sobre os temas que constroem a verdadeira agenda das urnas e o elemento diferenciador que alavanca vitórias à justa ou por curta margem.

A presença de demagogos e proto-ditadores em boletins de voto, cada vez mais comum, tem feito as delícias dos caçadores de fantasmas nas campanhas eleitorais em Itália, Israel, Brasil e EUA, só para abraçar exemplos recentes. Enquanto na Europa e no Médio Oriente recrudescem episódios fascistas que sedimentam poderes ultranacionalistas e retiram o esqueleto de Mussolini da campa e o corpo inteiro do extremismo de Ben Gvir........

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