Numa campanha onde se tenta dar importância a algo que deveria ser decisivo mas que se encontra esvaziado de poder e substância, esgotam-se hoje as fichas para convencer os portugueses a participar em mais um acto eleitoral. De algum modo, mais um entre outros. O Parlamento Europeu, sendo tudo o que podemos influenciar enquanto eleitores na construção do projecto uno da Europa, tem uma relevância demasiado simbólica e pouco material, em tudo semelhante à não concretização desse mesmo projecto. O tempo de reabilitar o ideal europeu deixou de ser uma terra prometida à dimensão das pessoas e parece cada vez mais entregue ao culto de extremismos e cultivo de ódios. O combate à desinformação é cada vez mais urgente.

Depois de legislativas e o voto de penalização-protesto que lhe foi associado, AD e PS fizeram um caminho em esforço para não perder percentagem e discutir a eleição europeia no “photo-finish”. Não podem aspirar a mais. Marta Temido em crescendo e Sebastião Bugalho em trilho de personalidade, cabeças de lista que polarizam e podem - independentemente da injustiça associada - criar espaços de rejeição que fortalecem outras candidaturas. É muito discutível o que farão os eleitores num tempo em que os líderes parecem mais fortes sem projecto. Contudo, parece ser evidente que a dispersão de voto pode afectar muito mais a AD pelos monstros que permitiu deixar crescer ao seu lado.

Numa corrida para sair do anonimato e desinteresse, a campanha revelou três pesos-pesados de experiência política. Foi da solidez de Catarina Martins, João Cotrim Figueiredo e João Oliveira que se fez boa parte do caminho para as europeias, pela preparação revelada e pela consistência que entregaram em cada debate. Se o prémio da crítica não corresponde ao prémio do público, isso já não será necessariamente com ou por culpa deles. BE, IL e PCP vivem com renovadas lideranças e as naturais angústias do sentimento de reajuste, cada um com os seus pesadelos próprios. Nestas eleições, o prémio revelação é mesmo para o que já se conhece. Não deixa de ser sintomático que todos os partidos com possibilidade de eleição de deputados europeus estejam numa encruzilhada, eles mesmos um projecto em construção, muito pela incapacidade que tiveram de conter ou de lidar com a percepção do crescimento de um mal comum. Tal como o projecto europeu, a suspirar por pequenos novos pesos, a precisar de se reinventar em crença.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

QOSHE - Os pequenos pesos - Miguel Guedes
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Os pequenos pesos

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07.06.2024

Numa campanha onde se tenta dar importância a algo que deveria ser decisivo mas que se encontra esvaziado de poder e substância, esgotam-se hoje as fichas para convencer os portugueses a participar em mais um acto eleitoral. De algum modo, mais um entre outros. O Parlamento Europeu, sendo tudo o que podemos influenciar enquanto eleitores na construção do projecto uno da Europa, tem uma relevância demasiado simbólica e pouco material, em tudo semelhante à não concretização desse mesmo projecto. O tempo de reabilitar o ideal europeu deixou de ser uma terra prometida à dimensão das pessoas e parece cada vez mais entregue ao........

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