As sondagens são os medidores de tensão diários, instrumentos usados para introduzir uma falsa sensação de clarificação nos eleitores de Março. A um trimestre de distância do epicentro da campanha eleitoral, aguentar este ritmo de sondagens, inquéritos e auscultações pode ser insano e gratuito. Todos os dias somos convocados a percepcionar a evolução das tendências em comparação, desde saber até quem ganha as próximas legislativas a quem vence as eleições internas no PS, quem ganha o país mas não ganha o partido, como evolui o índice da aceitação/rejeição, se Montenegro resiste, se Passos Assiste, se Marcelo aguenta o que é siamês, se Bolieiro pede eleições ou a repetição, se a maioria é à esquerda ou à direita, se a incidência parlamentar é caminho, se os Açores servem de alusão a coligações, se a esquerda-geringonça é referência, se a extrema-direita é coação eleitoral, se o parágrafo se atravessa inteiro ou se o Ministério Público requer nova leitura.

A troca directa e em espécie voltou da Antiguidade para influenciar eleitores. “A-minha-sondagem-é-melhor-do-que-a-tua” já não depende da amostra e do rigor, mas da valia das comparações e da coligação negativa das aceitações. A carta do “ciúme do sucesso” que José Manuel Bolieiro agitava para caracterizar o chumbo do Plano e Orçamento da região para 2024, na tentativa de impedir a dissolução da Assembleia Legislativa dos Açores, migrou de vontade como se a política continental invadisse o arquipélago. “Mais vale antecipar uma decisão do povo”, afirma agora o PSD açoriano, tentando apanhar a boleia do contexto político do continente. Eleições antecipadas “o mais rapidamente possível”, tendo em conta que se nada mudará com uma segunda votação, já algo pode mudar via contaminação.

Do passado, a contaminação faz história. Criou-se a ideia quase científica e politicamente irremissível de que a geringonça era fenómeno irrepetível, enterrado no tempo, sinalização de uma época em que alguns tinham que falar para se entenderem. A coligação de forças face à genuflexão de Passos Coelho perante o professor europeu não é só o reflexo do empobrecimento da classe média, pensionistas e de tantos sectores profissionais. É também um exemplo que, considerado instável à época, proporcionou os maiores momentos de estabilidade política em democracia.

Da estabilidade. Daí que a presença de Manuela Ferreira Leite no Congresso do PSD tenha uma importância simbólica e indesmentível: foi a única ex-liderança do PSD a comparecer. Simbolicamente, muito mais do que ex-líder, Cavaco Silva. Entre o quase sozinho e o mal acompanhado, Luís Montenegro escolheu-o para referencial de encerramento. A felicidade da oposição é evidente sempre que o ex-presidente decide reaparecer, via contaminação do passado. O grau de toxicidade do socratismo só encontra paralelo no cavaquismo. Estranho é que só o PSD continue a querer apresentar esse passado como referência.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

QOSHE - Contaminação por exemplo - Miguel Guedes
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Contaminação por exemplo

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01.12.2023

As sondagens são os medidores de tensão diários, instrumentos usados para introduzir uma falsa sensação de clarificação nos eleitores de Março. A um trimestre de distância do epicentro da campanha eleitoral, aguentar este ritmo de sondagens, inquéritos e auscultações pode ser insano e gratuito. Todos os dias somos convocados a percepcionar a evolução das tendências em comparação, desde saber até quem ganha as próximas legislativas a quem vence as eleições internas no PS, quem ganha o país mas não ganha o partido, como evolui o índice da aceitação/rejeição, se Montenegro resiste, se Passos Assiste, se Marcelo aguenta o que é siamês, se Bolieiro pede eleições ou a repetição, se a maioria é à esquerda ou à direita, se a incidência........

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