O processo identitário de um povo assume passados, fruto da História, e deve ser capaz de resistir a alguns presentes, tantas vezes envenenados, evitando a desgraça ao espelho e construindo futuro. O futuro do Brasil é incerto, mas dificilmente será pior do que o passado recente destes últimos quatro anos que provocaram uma espécie de lobotomia evangélica a uma pequena parte, ainda assim, dos 58 milhões de votantes em Jair Bolsonaro. Em causa não está a opção legítima e democrática de votar no futuro ex-presidente não reeleito do Brasil. Em causa, está o negacionismo eleitoral, a loucura indómita pelas "fake news" e o apelo à intervenção militar, nas ruas e nas redes sociais, algo que nem Bolsonaro foi capaz de fazer no pós-eleições, curtas são as rédeas do seu poder. Apesar de ter criado um monstro, Bolsonaro sabe que agora só o pode alimentar com os restos da sua democracia.

A segunda volta das eleições brasileiras confirmou que o voto escondido em Bolsonaro continua a valer cerca de 4% acima das sondagens. Perto de dois milhões de eleitores fizeram a diferença, elegendo Lula presidente, pela primeira e histórica vez, para um terceiro mandato, colocando Bolsonaro no mesmo trilho de Donald Trump, o daqueles chefes de Estado que falham a reeleição. Bolsonaro, dado como desaparecido durante 48 horas após combate eleitoral, regressou para uma declaração que cabe, integralmente, dentro da duração limitada de qualquer "tweet" ou "tiktok". Irresponsável, ambíguo e patético, após silêncio.

Mais tarde, obrigado a recorrer a um vídeo caseiro para concretizar um pouco mais do tanto que deixou por dizer, faz o apelo para a retirada da insanidade das ruas e permite acalentar a esperança de um processo de transição pacífico e constitucional. Não obstante o apelo de Steve Bannon, conselheiro e ideólogo de Trump e da "alt right" americana, na noite das eleições, defendendo que Bolsonaro não devia aceitar os resultados eleitorais, a via seguida pelo ex-presidente foi a mesma do ex-presidente dos Estados Unidos: incentivar, sem bloqueios, as manifestações nas ruas, alimentando a turbe com romantismo do que há-de vir, preparando o caminho para os quatro anos em que será uma sombra não reeleita a intentar o "impeachment" ao primeiro impulso.

A democracia brasileira não tem os travões antidemocráticos do sistema norte-americano e ainda está refém de parte de uma elite racista, xenófoba e herdeira dos privilégios coloniais e esclavagistas, desinteressada do sofrimento do povo, que tudo fará para que Lula saia em breve ou pouco depois. O caminho de Lula será o de reconciliar o país, combater a pobreza, restaurar a credibilidade do Brasil no Mundo, levantar o sigilo que Bolsonaro ergueu e tentar libertar parte da máquina do Estado ao serviço do ex-presidente do Brasil. O Mundo também tem a responsabilidade de estar, aqui e agora, com a democracia brasileira. Assim se viu, independentemente dos campos ideológicos, no primeiro dia deste novo amanhecer brasileiro.

*Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

QOSHE - Começar de novo - Miguel Guedes
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Começar de novo

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04.11.2022

O processo identitário de um povo assume passados, fruto da História, e deve ser capaz de resistir a alguns presentes, tantas vezes envenenados, evitando a desgraça ao espelho e construindo futuro. O futuro do Brasil é incerto, mas dificilmente será pior do que o passado recente destes últimos quatro anos que provocaram uma espécie de lobotomia evangélica a uma pequena parte, ainda assim, dos 58 milhões de votantes em Jair Bolsonaro. Em causa não está a opção legítima e democrática de votar no futuro ex-presidente não reeleito do Brasil. Em causa, está o negacionismo eleitoral, a loucura indómita pelas "fake news" e o apelo à intervenção militar, nas ruas e nas redes sociais, algo que nem Bolsonaro foi capaz de fazer no pós-eleições, curtas são as rédeas........

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