Não foram apenas os fenómenos de excentricidade que chegaram à política numa espiral de aberrações em concurso. Depois de Donald Trump e Jair Bolsonaro, a extrema-direita continua a granjear figuras de proa que qualquer “reality show” não desdenharia. O carisma, indispensável numa liderança, foi sendo substituído por alucinação e confronto. Os exemplos das vitórias de Javier Milei na Argentina e de Geert Wilders nos Países Baixos não podem continuar a ser encarados pelo sistema como cartas fora do baralho, epifenómenos ou episódios de burlesco ou demagogia extrema. A voz dos anti-sistema perdeu razoabilidade e pensamento crítico, esvaziou-se no básico e centrou-se na atitude visceral. A grosseria venceu e vale votos e os patos-bravos já não são aves raras. O crime compensa, sobretudo em projecção.

Caiu por terra a ideia de que os momentos de queda de Trump e Bolsonaro poderiam ser fundadores de um afastamento, pelo menos temporário, deste tipo de lideranças unipessoais. As crises institucionais, tumultos, humilhações, ameaças de “impeachment”, assaltos em arrastão às casas da democracia, detenções em massa e violência. Os acontecimentos nos EUA e Brasil não funcionaram como alarmes, antes como faróis. Não assistimos apenas ao fim da moderação, assistimos à migração da confiança para os extremos e para a política do vazio. E não foram os extremistas que se modelaram ao centro, foi o centro que se abriu aos extremos.

O populismo tem criadores, fundadores e paternais alquimistas. E poucos são os bons radicais que nos salvam dos extremistas. Nos Países Baixos, a ascensão de Wilders não oculta segredos e segue a cartilha de quem deixa entrar pela porta entreaberta: a partir do momento em que Mark Rutte, ex-primeiro-ministro neerlandês, permitiu equacionar a partilha de poder com o PVV de Wilders, abraçando a agenda antimigratória num país que teima em não resolver uma gigantesca crise no acesso à habitação (similitudes com Portugal, todas), estavam criadas as condições para germinar o discurso do ódio em solo fértil. Nenhuma erva daninha se detém perante a demagogia e o empobrecimento da terra.

Abraçar o discurso da extrema-direita, esperando que se moderem, eis um mantra repetido que não resiste à memória de empoderamento de Passos Coelho a André Ventura em Loures. E é Ventura que se encarrega de fazer que ninguém se esqueça: “Passos é quem pode fazer a ponte entre PSD e CH a seguir às eleições”, afirma. Trata-se, então, de refazer a ponte. Não se podia pedir que o bloqueio central resultante da inoperância do Bloco Central não tivesse consequências graves. Pior é ainda quando criam aliados nas forças que os consomem. Que os esvaziam em lume nada brando.

QOSHE - Antes alarmes, agora faróis - Miguel Guedes
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Antes alarmes, agora faróis

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24.11.2023

Não foram apenas os fenómenos de excentricidade que chegaram à política numa espiral de aberrações em concurso. Depois de Donald Trump e Jair Bolsonaro, a extrema-direita continua a granjear figuras de proa que qualquer “reality show” não desdenharia. O carisma, indispensável numa liderança, foi sendo substituído por alucinação e confronto. Os exemplos das vitórias de Javier Milei na Argentina e de Geert Wilders nos Países Baixos não podem continuar a ser encarados pelo sistema como cartas fora do baralho, epifenómenos ou episódios de burlesco ou demagogia extrema. A voz dos anti-sistema perdeu razoabilidade e pensamento crítico, esvaziou-se no básico e centrou-se na........

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