Não há nada de ecuménico no perdão do cristianismo que permita aproximação ou desvalorização de um conjunto de criminosos que viva encoberto em sociedade. Não é pecado, é crime. Num Estado laico, qualquer presidente da República (PR) deve deixar a apreciação do número de abusadores e criminosos à porta da Igreja, sela ela católica, anglicana, ortodoxa, protestante, luterana ou de mistura mística. A desvalorização das mais de 400 denúncias que transparece nas inusitadas declarações de Marcelo Rebelo de Sousa, após conhecidos os dados da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, é um inultrapassável mau momento que o pedido de desculpas desagrava, mas não faz esquecer. Até porque no "mea culpa" acresce o triste fado de uma escapatória.

A título justificativo, Marcelo refere que foram proferidas pela intuição de que muitas das vítimas não queriam ou podiam falar. A desvalorização transfigurar-se-ia, assim, num apelo de dedicação ao testemunho, uma exortação à denúncia dos que, silenciosos, faltaram à chamada. Mas a frase do presidente é apenas e só um momento muitíssimo infeliz. Isso e nada mais. Incompreensível na boca de qualquer pessoa, insustentável na voz de um PR. A menção às centenas de cidadãos que lhe manifestaram solidariedade nestes dias é a prova de um plano de fuga ao sinistro. Todos os ziguezagues comunicacionais, desdobrados na multiplicidade de momentos que se seguiram e em que Marcelo tentou justificar o injustificável, desvalorizando-o, não apagaram o fogo, só aumentaram a incredulidade geral.

Crime, dizemos nós. O presidente não foi mal compreendido, o presidente foi infeliz. E tão mais fácil seria dizer que as suas declarações foram infelizes e que as críticas que choveram de todos os quadrantes são justificadas. Não está em causa, obviamente, o carácter humano de Marcelo ou qualquer dúvida que possa existir sobre o pensamento do PR numa matéria tão complexa e delicada como esta. A simplicidade de admitir que se pode ser infeliz-às-vezes é um desafio que encerra verdade, arrependimento e em nada macularia um pedido de desculpas. Fazê-lo à quarta declaração, à boleia e pelo arrasto da opinião pública é algo deprimente. Crime, disse ele.

O catolicismo do presidente da República não pode ser questionado num Estado laico. Manda a higiene da República, porém, que a confissão religiosa seja transparente, equitativa e não crie questões existenciais a qualquer investigação. Lembremos a defesa pessoal de D. José Policarpo e D. Manuel Clemente, assim como a rábula mal esclarecida do(s) telefonema(s) a D. José Ornelas. Todos os episódios anteriores deixaram Marcelo cair em tentação. Mas só na avaliação da contabilidade das vítimas, caiu em pecado. Serão, já agora e até agora, pelo menos 1500 vítimas, sendo que só 20 a 25% dos casos serão conhecidos. Quando um já seria grave.

o autor escreve segundo a antiga ortografia

*Músico e jurista

QOSHE - A fuga ao sinistro - Miguel Guedes
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A fuga ao sinistro

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14.10.2022

Não há nada de ecuménico no perdão do cristianismo que permita aproximação ou desvalorização de um conjunto de criminosos que viva encoberto em sociedade. Não é pecado, é crime. Num Estado laico, qualquer presidente da República (PR) deve deixar a apreciação do número de abusadores e criminosos à porta da Igreja, sela ela católica, anglicana, ortodoxa, protestante, luterana ou de mistura mística. A desvalorização das mais de 400 denúncias que transparece nas inusitadas declarações de Marcelo Rebelo de Sousa, após conhecidos os dados da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, é um inultrapassável mau momento que o pedido de desculpas desagrava, mas não faz esquecer. Até........

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