Mais ódio, menos literacia |
Enquanto o país adiar um investimento sério em literacia digital, continuaremos a assistir ao crescimento da radicalização, dos crimes de ódio, da extorsão sexual, das fraudes online e das burlas digitais.
O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) é claro. Num ano, os crimes de ódio aumentaram 6,7%. Sem surpresa, o estudo sublinha o papel da Internet e das redes sociais na difusão de conteúdos que incitam à violência e promovem a discriminação com base em raça, religião ou orientação sexual.
Há menores e jovens adultos mergulhados em perigosos grupos online neonazis, satânicos, misóginos e niilistas. E não estão nestes espaços apenas para entretenimento. Participam, amplificam. São agentes de propagação destes conteúdos. Muitos deles estão em casa, protegidos pelas paredes dos quartos, que deixaram de ser um refúgio para se tornarem portas abertas para o mundo. A distorção da realidade, o afastamento dos valores aceites pela sociedade e a adesão a teorias da conspiração ou narrativas antissistema são consequências da exposição prolongada a ambientes digitais sem mediação crítica.
Se queremos travar este fenómeno, são necessárias estratégias preventivas, lê-se no próprio RASI. Mas essas estratégias exigem mais do que regras parentais ou regulamentação das plataformas. Exigem literacia, atenção social permanente e capacidade de interpretar para agir antes que seja tarde.
Mais do que as listas obrigatórias de leitura no Secundário, como a inclusão ou não de José Saramago, as grandes discussões em torno da Educação deviam centrar-se no presente, na realidade, e dar à literacia digital a importância que ainda não teve.
Porque é essa literacia que permitirá distinguir conhecimento de manipulação, informação de propaganda. E evitará que se formem, por exemplo, negacionistas que ainda não acreditam que o Homem foi à Lua. É que está a ir para lá outra vez.