É verdade que as mensagens em uma campanha política são sempre um empobrecimento do discurso. Mas nunca foi assim tão pobre, tão vazio, tão triste e tão grotesco. O objetivo já nem é mais informar. Apenas fazer odiar.

Todos gritam a preto e branco. - Ele é bom, ele é ruim. É comigo ou contra mim. Meu Deus, ele é o Diabo. (Nomes capitalizados). Não há mais tons de cinza, cores no arco-íris ou escalas musicais. O som é de uma nota só. O que equivale a nenhum. Conversa digna de surdos. Só passado, sem futuros.

Nas vésperas da segunda volta das eleições no Brasil ninguém consegue produzir uma alegria que equilibre a raiva do dia a dia. O maniqueísmo apoderou-se das palavras e aprisionou o tempo.

Os meus amigos que sempre ligavam só para dar um dedo de conversa, trocar uma ideia ou bater um papo já não fazem isso. Apenas mandam mensagens. Vídeos e memes. Todas berrando alguma inquestionável verdade ao meu ouvido. Mas sem quererem saber o que eu penso, o que eu sei, ou se a mensagem me foi por mil vezes repetida.

Por medo da resposta não se fazem perguntas. Apenas se afirmam lados. Doce ou salgado. Cefalópede invertebrado ou canibal de bananada. Já ninguém quer entender nada.

As conversas são todas por mensagem. Cifradas na raiva da rede verde, esse tal de WhatsApp, que já nem em português significa "o que se passa". Nos grupos que por lá há, onde antes os amigos se juntavam, hoje não são mais lugares de debate. São altares de afirmação e, por isso, inúteis.

As centenas de milhares de mensagens diariamente lá colocadas são a radiografia de uma sociedade esquizofrénica que o excesso de comunicação tornou cega, surda e muda e onde a democracia, a cada dia que passa, se enfraquece.

Tarrenego, WhatsApp. Vade-retro, Satanás!

*Presidente da Associação Portugal Brasil 200 anos

QOSHE - Tarrenego, WhatsApp! - José Manuel Diogo
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Tarrenego, WhatsApp!

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13.10.2022

É verdade que as mensagens em uma campanha política são sempre um empobrecimento do discurso. Mas nunca foi assim tão pobre, tão vazio, tão triste e tão grotesco. O objetivo já nem é mais informar. Apenas fazer odiar.

Todos gritam a preto e branco. - Ele é bom, ele é ruim. É comigo ou contra mim. Meu Deus, ele é o Diabo. (Nomes capitalizados). Não há mais tons de cinza, cores no arco-íris ou escalas musicais. O som é de uma nota só. O que........

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