Na passada segunda-feira, ao minuto seis do segundo tempo, durante os dois segundos em que a bola viajou, sem que mais alguém a viesse a tocar, entre o pé direito do "meia" português Bruno Fernandes e a desamparada tristeza do "goleiro" uruguaio Sergio Rochet, muitas revelações aconteceram.

Por baixo da trajetória elíptica que desenhou o primeiro golo da seleção de Portugal contra a do Uruguai, um "quase momento" aconteceu. "Quase momento" porque, apesar de realmente não ter acontecido, a sua quase possibilidade suscitou um inusitado real interesse na indústria do futebol. Foi por um fio de cabelo.

Até houve quem comparasse a mão de deus de Maradona, que há 35 anos subiu mais alto que as mãos do "goleiro" inglês Shilton, ao fio de cabelo sem gel de Cristiano Ronaldo, mas, apesar das materialidades adjacentes, o mais substantivo é que os futebóis de 1986 e de 2023 estão muito longe um do outro.

Onde antes se lia "milagre", hoje a tecnologia escreve apenas "negócio". Por isso, ver a Federação Portuguesa de Futebol, qual terraplanista da zaga, a pedir para Cristiano o golo que era de Bruno é pleito difícil de compreender. Os dois jogadores são portugueses, jogam na mesma equipa, participam na mesma jogada e até festejam juntos o mesmo golo. Qual a justa medida neste caso se, afinal, o golo foi válido e vencemos como equipa? Qual a importância da autoria neste caso? Foi a divina cabeça de Cristiano Ronaldo ou o apócrifo pé de Bruno Fernandes?

Mas, se estamos preocupados com autorias, é preciso voltar algumas casinhas atrás no jogo. Marta, muito antes de Cristiano, foi a primeira jogadora de futebol a marcar golo em cinco "copas" e foi eleita melhor do Mundo por seis vezes.

No meio dos absurdos civilizacionais tolerados pela FIFA, até essa autoria foi esquecida. Porque a agenda da igualdade e do clima que junta jatos no Cairo foi suspensa no Catar.

*Presidente da Associação Portugal Brasil 200 anos

QOSHE - Por um fio de cabelo - José Manuel Diogo
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Por um fio de cabelo

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01.12.2022

Na passada segunda-feira, ao minuto seis do segundo tempo, durante os dois segundos em que a bola viajou, sem que mais alguém a viesse a tocar, entre o pé direito do "meia" português Bruno Fernandes e a desamparada tristeza do "goleiro" uruguaio Sergio Rochet, muitas revelações aconteceram.

Por baixo da trajetória elíptica que desenhou o primeiro golo da seleção de Portugal contra a do Uruguai, um "quase momento" aconteceu. "Quase momento" porque, apesar de realmente não ter........

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