Os extremos que no Brasil se odeiam, em Portugal partilham conversas e amigos, mas não só.

Dão-se bem! Como se os tugas fossem um antídoto para os seus ódios domésticos.

Em Portugal, apoiantes sonoros de Bolsonaro e Lula sentam-se na mesma mesa e bebem do mesmo vinho. Entre eles a política não é tabu. Parece que temos um surpreendente efeito apaziguador. Os ares da "terrinha" deviam ser importados.

Esta história aconteceu em Lisboa e vale a pena contá-la porque os protagonistas são bons tipos e o Cícero, nome de batismo do restaurante homónimo do famoso pintor modernista brasileiro Cícero Dias, compõe o quadro com qualidade.

Foi um jantar com todos os condimentos. Vinho do bom, amigos do melhor e livros.

O Paulo Dalla Nora, patrão do Cícero, tem uma vocação tardia mas imparável para ser patrono das artes literárias, e foi para conversar dessa maravilhosa lista dos 200 livros que a Associação Portugal Brasil 200 anos apresentou juntamente com a "Folha de S. Paulo" no último Dia Mundial da Língua Portuguesa (5 de maio), que os amigos se reuniram, acompanhando em perfeita sintonia, na pauta da amizade luso-brasileira.

Eis senão quando, um dos convivas, português menos treinado nas tragicomédias do luso-brasileirismo no exílio, joga Bolsonaro no lagostim suado e Lula no atum braseado. Logo pensei - modinha de aforismo - Afonso querido Afonso, não vá entornar o caldo, não perca tempo, não perca, fique de bico calado.

Mas era exagero meu. Um dos convivas suspirou sorvendo um Madeira Bual muito seco e o outro nem comentou, logo elogiando uma paçoca de amêndoa.

Distraidamente, todos seguiram a conversa, elogiando a lista, a Carolina de Jesus, o Guimarães Rosa e o Davi Kopenawa, como se estivessem vendo o Mundo... e ele começasse em Lisboa.

*Presidente da Associação Portugal Brasil 200 anos

QOSHE - Os ares da "terrinha" - José Manuel Diogo
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

Os ares da "terrinha"

4 0 0
01.09.2022

Os extremos que no Brasil se odeiam, em Portugal partilham conversas e amigos, mas não só.

Dão-se bem! Como se os tugas fossem um antídoto para os seus ódios domésticos.

Em Portugal, apoiantes sonoros de Bolsonaro e Lula sentam-se na mesma mesa e bebem do mesmo vinho. Entre eles a política não é tabu. Parece que temos um surpreendente efeito apaziguador. Os ares da "terrinha" deviam ser importados.

Esta história aconteceu em Lisboa e vale a........

© Jornal de Notícias


Get it on Google Play