"Universos paralelos"

O artista digital Ugur Gallenkus criou uma série de trabalhos a que chamou "Universos paralelos". Através de imagens sobrepostas constrói uma única, em que revela lado a lado os mais extremos opostos. Tudo é real, tudo existe, nos dias de hoje. As colagens que unem diferentes fotografias jornalísticas são realmente dois mundos, de felicidade e de tragédia, de luxo e de miséria, são um soco ao estilo K.O., mostra das profundas desigualdades dos nossos dias.

Numa dessas imagens, o turco, que tem trabalhado com várias agências das Nações Unidas e trilhado um percurso que grita contra o abismo que separa os diferentes universos que cabem num só planeta, justapõe duas banheiras, a da direita é igual a tantas que podem ser encontradas num qualquer hotel do mundo ocidental, a da esquerda, está colocada no meio de ruínas com duas crianças ensaboadas, com vista privilegiada para Gaza, ou melhor, para um amontoado de edifícios colapsados.

A fotografia da Palestina, de Wissam Nassar, utilizada para a criação já seria perturbadora "per se", mas a vertiginosa clivagem servida pela oposição revela quão profundas são as diferenças destes universos paralelos. Há mais, a da banana transformada em milhões de dólares justaposta com um corpo de criança pele e ossos.

Lembrei-me de Ugur a propósito deste dia em que se celebra a viagem de raspão à Lua (se acontecer) e ao mesmo tempo o enforcamento de palestinianos, apenas palestinianos, em Israel. A União Europeia foi peremptória em considerar a medida "um grave retrocesso", mas o primeiro-ministro espanhol chamou-lhe mesmo "apartheid". A discriminação contra os palestinianos é mais um passo para a segregação ou a aniquilação. Nos universos paralelos, há morte por enforcamento e celebrações de execuções com champanhe.


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