A tão anunciada onda vermelha que se previa para as eleições intercalares dos EUA, com uma previsível conquista do Senado e da Câmara dos Representantes por parte do Partido Republicano, não aconteceu. Até agora, apenas se sentiu uma ligeira ondulação. Os democratas respiraram de alívio, mas o perigo não desapareceu. Até porque os votos não estão todos contados.

Na edição desta semana, a revista "Time" fala de uma América enredada numa encruzilhada política. Não sendo bons para democratas e republicanos, os resultados revelam-se um pesadelo para certas pessoas, nomeadamente para Donald Trump que tem prometido um grande anúncio para a próxima terça-feira. Apostando em candidatos negacionistas e de verbo corrosivo em relação ao sistema democrático, o ex-presidente dos EUA viu várias apostas suas saírem derrotadas destas eleições. Infelizmente para si, o governador da Florida reforçou a votação de 2018 e fixou uma vitória expressiva para o Partido Republicano. E isso coloca-o como um putativo candidato para as eleições de 2024. Embora Ron DeSantis tenha mantido um certo silêncio estratégico sobre as suas atuais aspirações à Casa Branca, as sondagens posicionam-no como uma boa opção para a corrida presidencial, algo que Trump tratará de neutralizar rapidamente se (continuar a) pensar nele próprio para esse papel...

Sendo ainda mais radical na sua leitura das eleições da passada terça-feira, a conservadora revista britânica "The Spectator" fala de "uma América muito longe da sanidade mental". Talvez seja uma perspetiva algo exagerada, até porque poderemos olhar para este país profundamente dividido como tendo tido a capacidade notável de equilibrar duas forças opostas, ao contrário do que é habitual nas eleições intercalares, que tendem a penalizar duramente o partido do presidente em exercício. Como escreve a "Time", "apanhados entre a insensatez democrata e a loucura republicana, os eleitores optaram por um impasse: uma espécie de repúdio de ambos os partidos". Se é verdade que a inflação e o crime desenfreado arrefecem o apoio aos democratas, também é um facto que muitos não se reveem na realidade alternativa tóxica de um Partido Republicano dominado por Trump.

Ainda sem saberem quem terá a maioria do Senado e da Câmara dos Representantes, os EUA devem aproveitar estes dias para retirarem algumas lições para 2024. Uma deles será a de que Donald Trump se revela incapaz de formar uma onda galvanizante, a outra é a de que Joe Biden deveria dar lugar a uma alternativa mais energética. No entanto, há uma perigosa turbulência política que impede o país de dar sinais de renovação...

Professora associada com agregação da UMinho

QOSHE - Uma perigosa turbulência na política americana - Felisbela Lopes
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Uma perigosa turbulência na política americana

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11.11.2022

A tão anunciada onda vermelha que se previa para as eleições intercalares dos EUA, com uma previsível conquista do Senado e da Câmara dos Representantes por parte do Partido Republicano, não aconteceu. Até agora, apenas se sentiu uma ligeira ondulação. Os democratas respiraram de alívio, mas o perigo não desapareceu. Até porque os votos não estão todos contados.

Na edição desta semana, a revista "Time" fala de uma América enredada numa encruzilhada política. Não sendo bons para democratas e republicanos, os resultados revelam-se um pesadelo para certas pessoas, nomeadamente para Donald Trump que tem prometido um grande anúncio para a próxima terça-feira.........

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