Começa domingo o primeiro Mundial a decorrer num país árabe. É o mais caro de sempre, somando um custo de mais de 200 mil milhões de euros. Sem uma expressiva cultura futebolística, o Catar vê aqui uma oportunidade de afirmação global. Mas a contestação tem sido grande.

Quando a 2 de dezembro de 2010 a FIFA anunciou o local do Mundial 2022, poucos perceberam o racional da escolha. O país não tinha créditos no futebol, não apresentava um clima favorável aos jogos, não garantia o respeito pelos direitos humanos, não demonstrava empenho no combate às alterações climáticas e não parecia favorável a uma ação de ataque à corrupção. Mas tinha dinheiro e recursos atrativos. Depois da Rússia e do Irão, o Catar é a terceira reserva mundial de gás, sendo um dos maiores exportadores de gás liquefeito. E isso hoje, mais do que no passado, impõe respeito por parte de um Ocidente que quer cortar a dependência russa a esse nível. No entanto, esses estímulos não têm tido a força suficiente para silenciar as críticas, apesar do esforço que o país faz para controlar a informação.

Um dos tópicos com mais cobertura mediática é o das mortes de trabalhadores imigrantes na construção dos estádios. As entidades locais falam num número inexpressivo de acidentes mortais em contextos de trabalho. Todavia, as ONG têm avançado dados assustadores. Em fevereiro, o jornal "The Guardian" avançava o número de 6500 óbitos. As famílias desses imigrantes reclamam indemnizações que dificilmente vão acontecer, porque não há registos de nada. A 20 de outubro, "The Indian Express" publicava uma reportagem de leitura pesada. Um dos entrevistadas denunciava que o filho de 32 anos retornara à Índia, sem vida, dentro de uma caixa. Akhilesh, de 22 anos, nem sequer regressou a casa. A sua mulher soube que o marido morrera por um amigo que também trabalhava no Catar. Apenas isso.

Outra situação sensível tem a ver com a climatização dos estádios que, por serem abertos, exigem elevadas quantidades de energia e, por conseguinte, implicam significativas emissões. Também os direitos humanos e as questões de género têm suscitado várias contestações. Neste contexto, o pontapé de saída para este Mundial não será propriamente tranquilo. Em vários países, assumem-se já formas variadas de boicote. Por exemplo, cidades como Paris, Lyon, Marseille ou Bordeaux decidiram não colocar qualquer ecrã gigante em espaços públicos.

Mesmo prejudicado por esta instabilidade, o Mundial 2022 coloca, a partir deste fim de semana, uma bola a rolar dentro de campo. E isso, num evento como este, adquire uma dimensão global, com um certo efeito de cola do Mundo que nenhum outro acontecimento alcança.

*Professora associada com agregação da UMinho

QOSHE - Uma bola a rolar num país sem cultura futebolística - Felisbela Lopes
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

Uma bola a rolar num país sem cultura futebolística

5 1 5
18.11.2022

Começa domingo o primeiro Mundial a decorrer num país árabe. É o mais caro de sempre, somando um custo de mais de 200 mil milhões de euros. Sem uma expressiva cultura futebolística, o Catar vê aqui uma oportunidade de afirmação global. Mas a contestação tem sido grande.

Quando a 2 de dezembro de 2010 a FIFA anunciou o local do Mundial 2022, poucos perceberam o racional da escolha. O país não tinha créditos no futebol, não apresentava um clima favorável aos jogos, não garantia o respeito pelos direitos humanos, não demonstrava empenho no combate às alterações climáticas e não parecia favorável a uma ação de ataque à corrupção. Mas tinha dinheiro e recursos........

© Jornal de Notícias


Get it on Google Play