Quando a Coroa defende o jornalismo. O exemplo de Letizia |
Não acompanho com regularidade a imprensa cor-de-rosa, nem o noticiário de celebridades, mas detenho-me com particular interesse nos discursos proferidos pela rainha de Espanha. Letizia Ortiz Rocasolano fala frequentemente de improviso, mas torna-se sempre evidente que as suas intervenções resultam de uma cuidadosa preparação no conteúdo e na forma. Esta semana, em declarações aos jornalistas que a aguardavam à porta de locais por onde passou, deu uma forte lição a muitos políticos.
Numa visita de natureza privada, a rainha de Espanha esteve, na manhã de quarta-feira na Casa de Galicia em Madrid para participar no velório de Fernando Ónega. No exterior, de forma sucinta, mas muito enfática, evocou o professor de jornalismo que sempre reuniu admiração de sucessivas gerações de alunos (entre os quais se incluiu) e disse aos repórteres que também estava ali para prestar homenagem a uma profissão, a de jornalista, e a um meio, a rádio, onde Ónega desenvolveu parte do seu percurso. E sublinhou vários testemunhos que escutara nas emissões especiais transmitidas a propósito deste desaparecimento.
Na véspera, Letizia Ortiz Rocasolano tinha presidido em Castelló a um evento que assinalava o Dia das Doença Raras. Interpelada por uma jornalista para falar do tema, a rainha optou por destacar, e agradecer, o trabalho dos jornalistas no campo da saúde. E mais uma vez se percebeu que estava bem por dentro do trabalho de cobertura jornalística que vinha sendo desenvolvido.
Estes gestos, aparentemente simples, têm um significado que ultrapassa o protocolo. Num tempo em que o jornalismo é descredibilizado, atacado e instrumentalizado, ouvir uma rainha enaltecer o jornalismo enquanto bem público é uma prova de enorme maturidade e responsabilidade democráticas que qualquer país pode dar. Por ter sido jornalista de televisão, Letizia Ortiz Rocasolano compreenderá de forma nítida as exigências e as fragilidades da profissão. Ainda assim, seria fácil, no lugar que hoje ocupa, refugiar-se num discurso mais cómodo e protocolar. Não é essa a sua opção. Ao valorizar explicitamente o trabalho dos média noticiosos e ao demonstrar que acompanha com muita atenção o trabalho desenvolvido em diferentes redações, reafirma que a informação jornalística é um pilar relevante de um espaço público que se quer equilibrado, participativo e integrador de todos os cidadãos.
Em Portugal, nunca escutei declarações semelhantes vindas de figuras oficiais. Talvez esteja na hora de percebermos que defender o jornalismo livre não é um gesto de circunstância, mas um compromisso essencial com a própria democracia.