Um estudo recente da Obercom, circunscrito à imprensa, demonstra que a distribuição digital não autorizada de jornais, num mercado avaliado em 144 milhões de euros, causa um prejuízo na ordem de 44 milhões de euros anuais e uma receita perdida pelo Estado de 2,5 milhões de euros. No fim, todos perdemos.

É tentadora a adesão a aplicações de mensagens instantâneas que distribuem PDF de jornais sem por isso nada pagar. No entanto, essas pessoas devem ter consciência de que tal ato é um roubo, porque estão a tomar para si de forma gratuita um bem que encontra na venda das respetivas edições uma fonte importante de financiamento.

No mesmo estudo, cita-se um inquérito do Instituto da Propriedade Intelectual da União Europeia referente a 2019 e 2020, segundo o qual 9% dos portugueses admitem ter acedido a conteúdos de forma não autorizada, sendo os jovens aqueles com maior consumo a esse nível. Neste contexto, a Obercom encoraja os grupos mediáticos a encontrar uma alternativa aos PDF, a fim de combater uma ilicitude que não tem sequer uma enérgica reprovação social. Mas deveria ter. Por vários motivos.

Mesmo num ecossistema em que a informação está acessível a partir de diversos canais, os conteúdos de natureza jornalística implicam uma seleção através de uma avaliação profissional daquilo que importa saber, havendo depois uma construção assente em critérios noticiosos que tornam relevante e rigoroso aquilo que é transmitido. Em tempos pandémicos, percebemos melhor o valor do jornalismo, que é ainda mais proeminente na construção de sociedades democráticas. Não é, de todo, aquilo que se observa nas redes sociais. Muitas vezes, são espaço instrumental de agentes comprometidos com a desinformação, a entropia e, no limite, com o caos.

Ora, um jornalismo de qualidade tem custos, que infelizmente os cidadãos nem sempre estão disponíveis a pagar. No estudo aqui citado, aponta-se o preço dos jornais como a razão principal para aceder ilicitamente aos respetivos conteúdos. Não será esse um argumento sustentável, porque uma assinatura de um jornal, sobretudo em formato digital, não é assim tão dispendiosa, se a olharmos como um bem essencial.

Diz o estudo da Obercom que, em junho último, uma ação da Inspeção-Geral das Atividades Culturais encerrou 11 grupos e canais através dos quais se distribuíam jornais de forma gratuita. Rapidamente, esses grupos renasceram com outro nome. Talvez esteja mesmo na altura de os donos dos média tomarem medidas determinadas para travar práticas que estão a contribuir para matar a imprensa, mesmo que isso signifique um reposicionamento dos projetos editoriais face aos leitores.

*Prof. associada com agregação da UMinho

QOSHE - Não partilhe jornais! - Felisbela Lopes
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Não partilhe jornais!

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12.08.2022

Um estudo recente da Obercom, circunscrito à imprensa, demonstra que a distribuição digital não autorizada de jornais, num mercado avaliado em 144 milhões de euros, causa um prejuízo na ordem de 44 milhões de euros anuais e uma receita perdida pelo Estado de 2,5 milhões de euros. No fim, todos perdemos.

É tentadora a adesão a aplicações de mensagens instantâneas que distribuem PDF de jornais sem por isso nada pagar. No entanto, essas pessoas devem ter consciência de que tal ato é um roubo, porque estão a tomar para si de forma gratuita um bem que encontra na venda das respetivas edições uma fonte importante de financiamento.

No mesmo estudo, cita-se um........

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