Precisamos urgentemente de revolucionar os nossos modos de vida: a maneira como nos deslocamos, vivemos, comemos, produzimos e consumimos. Os média também deveriam alterar as agendas noticiosas. Porque o Mundo está a passar por mudanças profundas.

Na entrega dos prémios Fundação Mestre Casais/CEiiA de Jornalismo para a Sustentabilidade, a cujo júri presidi, os jornalistas distinguidos foram desafiados a falar do que fizeram. Nas suas intervenções, sublinharam a liberdade que lhes foi dada para criarem outros ângulos noticiosos, do extenso tempo que tiveram para construir as suas peças, da descoberta de fontes inesperadas que encheram os textos de novos e desafiantes sentidos e houve mesmo quem avançasse números audiométricos para assegurar que este jornalismo de inequívoco interesse público suscita uma inegável atração de audiências. Ficava subentendida a urgência em alterar tematizações de um noticiário muitas vezes repetitivo, porque também feito a reboque de fontes sem coragem para provocar ruturas severas no seu campo de ação. As redações sabem por onde o jornalismo deve avançar, mas faltam meios e condições para se criarem outras notícias, outras secções, outros alinhamentos. Não há folga financeira para errar e recuar e isso condiciona muita coisa. No entanto, aqui e ali, somam-se sinais de que existem mudanças importantes em curso. E o número substancial de trabalhos candidatos a este prémio e, sobretudo, a respetiva qualidade jornalística testemunham bem isso.

Ontem, a revista L"OBS colocava em capa o título "Liberdade, igualdade e sobriedade". O grito da revolução francesa adquire nesta publicação uma outra versão, procurando-se fazer enraizar na sociedade um estilo sóbrio que nos garante uma vida com mais saúde, mais bem-estar e um crescimento mais harmonioso com as nossas necessidades. Nesta edição, o investigador Eloi Laurent, profundo defensor de uma viragem de paradigma, defende que o crescimento tem sido cego à qualidade de vida das pessoas, surdo ao sofrimento social e mudo relativamente ao estado do planeta.

O presidente francês, de quem nos habituamos a ouvir discursos inflamados de otimismo e fervor em relação a uma economia em aceleração, mudou de registo. Agora tem falado mais no fim da abundância e apelado a alguma contenção nos gastos. A 29 de agosto, num encontro com empresários, a primeira ministra Elisabeth Borne exortou mesmo os presentes a reduzirem o consumo de energia nas suas empresas. Podemos não entender bem isto, mas a verdade é que estamos a deixar de ter condições para viver em abundância.

*Prof. associada com agregação da UMinho

QOSHE - Mudar de vida - Felisbela Lopes
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Mudar de vida

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09.09.2022

Precisamos urgentemente de revolucionar os nossos modos de vida: a maneira como nos deslocamos, vivemos, comemos, produzimos e consumimos. Os média também deveriam alterar as agendas noticiosas. Porque o Mundo está a passar por mudanças profundas.

Na entrega dos prémios Fundação Mestre Casais/CEiiA de Jornalismo para a Sustentabilidade, a cujo júri presidi, os jornalistas distinguidos foram desafiados a falar do que fizeram. Nas suas intervenções, sublinharam a liberdade que lhes foi dada para criarem outros ângulos noticiosos, do extenso tempo que tiveram para construir as suas peças, da descoberta de fontes inesperadas que encheram os textos de........

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