Haverá outra crise de refugiados na Europa? |
Para além da colossal tragédia que uma guerra provoca no terreno onde decorre, já todos percebemos que o conflito no Irão tem um enorme impacto na economia global e, por extensão, na vida económica de todos nós. Esta semana, a revista "Newsweek" lembra outra consequência: podemos estar perante o início de uma nova crise de refugiados na Europa. Como nunca houve.
O contexto do Irão é simples de esboçar: um país com 90 milhões de habitantes, imerso em problemas internos, como a falta de comida, escassez de energia e instabilidade política, é agora esmagado por ataques bélicos. Neste ambiente, muitos tentarão escapar antes que a violência se torne humanamente insuportável. Mesmo que apenas uma pequena parte da população se ponha em fuga, o número de pessoas em movimento poderá ser muito expressivo. Já vimos este filme acontecer na Síria em 2015, numa escala bem mais pequena.
Turquia, Iraque e Paquistão poderão ser os primeiros países a sentir esse impacto, mas o passado recente mostra-nos que tais fluxos ganham rotação e depressa se constituem como rotas firmes em direção à Europa, fazendo renascer trilhos já conhecidos em vários países. E isso acentua o ambiente de crise que sentimos pesar (muito) sobre nós.
Fragilizada por crises recentes e por um contexto internacional cheio de tensão, a União Europeia, sobretudo países onde a extrema-direita tem grande recetividade no eleitorado, poderá sentir, a curto prazo, uma pressão ainda maior. E mesmo territórios onde o tema da imigração tem permanecido adormecido ou atenuado poderão ver crescer um debate político sobre fluxos migratórios, o que provoca sempre divisões internas muito significativas e, ao mesmo tempo, vai alimentando movimentos populistas.
A crise humanitária que se poderá avizinhar coloca outra questão que se sobrepõe a todas: a dimensão humana. Cada número espelha uma vida interrompida, em sofrimento, embrulhada numa dor sem fim. Ora, uma crise assim não é apenas um desafio logístico, mas uma emergência a que todos têm o dever de acudir.
Os políticos, e também os média noticiosos, não têm falado muito deste lado da guerra, porque estão muito concentrados nos mísseis, nos equilíbrios de poder e nas colisões económicas nas bolsas mundiais e nos bolsos de cada um, mas é precisamente no drama humanitário que se situa um dos impactos mais duradouros. Porque, quando as guerras terminam nos mapas dos ataques de bombas, perpetua-se na vida das pessoas que as envolvem. Naqueles que chegam a fronteiras que erguem muros, criam centros de detenção ou políticas restritivas. E veem, assim, a sua vida sem qualquer futuro.