Com a aprovação final agendada para 22 de novembro no Parlamento Europeu, a diretiva "Women on Boards" vai impor cotas obrigatórias para mulheres nos cargos executivos (33 por cento) e não executivos (40 por cento) das empresas cotadas em bolsa. É uma mudança substancial, mas as revoluções não se decretam. Antes acontecem por transformações estruturais que, a este nível, estão longe de existir.

Quem tem filhos pequenos e uma carreira ou horários exigentes conhece bem as dificuldades em compatibilizar vidas familiar e profissional. Em muitos casos, nós, mulheres, queremos ocupar-nos dos filhos naquilo que poderá ser um quotidiano trivial: deixá-los de manhã na escola e recolhê-los aí ao final do dia, apoiar os trabalhos de casa, transportá-los para atividades com os amigos... No início de cada ano letivo, elaborámos horários que nos obrigam diariamente a fazer uma quadratura do círculo, mas que tornam possível esse acompanhamento. Todavia, os problemas surgem a cada momento: uma reunião que estica indefinidamente, um trabalho que empata em determinado ponto... Nesses casos, nem sempre é simples dizer que, àquela hora, temos compromissos assumidos com os nossos filhos, e sem substituição assegurada. E lá vamos esticando o tempo que depois poupamos numa condução mais apressada rumo à escola ou em direção a casa de alguém que nos serviu de improvisada boleia de última hora.

Esta semana, soubemos que, apesar de progressos, o nosso país está 5,8 pontos abaixo da média europeia no índice de igualdade de género. Os 62,8 por cento que Portugal reúne constituem uma classificação que não nos envergonha, mas que impede euforias no que diz respeito à valorização do contributo das mulheres para a economia e para a sociedade. Se querem assumir uma carreira e uma família, elas continuam a correr muito mais do que eles para cumprirem obrigações profissionais e, simultaneamente, dar respostas às solicitações da casa e dos filhos.

Estaremos mais adiantados no que diz respeito à paridade. Em Portugal, a lei n.o 62/2017 já definiu cotas para as mulheres no setor público, embora o quadro legal tenha interstícios na diferenciação entre lugares executivos e não executivos, não sendo difícil prever para onde são desviadas as mulheres... Depois de aprovada no Parlamento Europeu, a diretiva de paridade nas empresas europeias cotadas em bolsa tem um prazo de adaptação de, pelo menos, dois anos e uma data a partir da qual não se admitem exceções àquilo que está fixado: 30 de junho de 2026. Cumprida a alteração formal, começa outra, a estrutural, que exigirá mudanças substanciais em certas empresas, muito vocacionadas para perfis de topo sem exigentes compromissos familiares.

*Prof. associada com agregação da UMinho

QOSHE - Fazer estilhaçar o teto de vidro - Felisbela Lopes
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Fazer estilhaçar o teto de vidro

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28.10.2022

Com a aprovação final agendada para 22 de novembro no Parlamento Europeu, a diretiva "Women on Boards" vai impor cotas obrigatórias para mulheres nos cargos executivos (33 por cento) e não executivos (40 por cento) das empresas cotadas em bolsa. É uma mudança substancial, mas as revoluções não se decretam. Antes acontecem por transformações estruturais que, a este nível, estão longe de existir.

Quem tem filhos pequenos e uma carreira ou horários exigentes conhece bem as dificuldades em compatibilizar vidas familiar e profissional. Em muitos casos, nós, mulheres, queremos ocupar-nos dos filhos naquilo que poderá ser um quotidiano trivial: deixá-los de manhã na escola e........

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