Começa, no próximo domingo, em Sharm-el-Sheikh, no Egito, a COP27. Para além de repensar políticas para diminuir as emissões de gases com efeito de estufa e para melhor nos adaptarmos às inevitáveis consequências das alterações climáticas, esta conferência do Clima tem de colocar como prioridade máxima a ajuda financeira aos países mais pobres. E olhar para o (mau) estado do planeta de forma pragmática. Não está tudo perdido. Apenas é um bocadinho tarde.

Em capa, a revista "The Economist" afirmava ontem que é preciso "dizer adeus à meta de aquecimento de 1,5 graus centígrados", considerando isso um objetivo hercúleo fixado na bem-intencionada conferência de Paris que, há sete anos, ambicionou bem mais do que era possível atingir. Assumir isso será uma sentença de morte para alguns modos de vida e para certos ecossistemas, mas coloca-nos no realismo necessário para reconhecer certas verdades inconvenientes. A revista enuncia três: constatar sem complexos que os combustíveis fósseis não podem ser deixados para trás da noite para o dia; pensar noutras formas de adaptação face aos atuais desastres climáticas; e priorizar muito mais dinheiro para a tarefa vital do arrefecimento do planeta.

O financiamento aos países menos desenvolvidos é também um imperativo destacado pela "Time". Responsabilizando enormemente os europeus e norte-americanos pelo incumprimento das metas climáticas, a revista defende que as nações ricas devem adotar uma agenda colaborativa com as regiões vulneráveis, que hoje enfrentam, desprotegidas, "inundações catastróficas, fomes mortais e migração descontrolada", criando, a partir desses lugares, desestabilizadores efeitos em cascata. Num extenso artigo sobre esta problemática, recorda-se que o continente africano está a perder 15 por cento do seu PIB anual per capita por causa dos efeitos climáticos, podendo esse número duplicar nas próximas décadas. Na África Oriental a fome causada pela seca está a matar uma pessoa a cada 36 segundos.

Na revista L"OBS, Valérie Masson Delmotte, vice-presidente do grupo de peritos do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), deixa um longo rasto de esperança, assegurando que não é tarde para inverter caminhos. No entanto, urge tomar decisões certas nos planos político, económico e social. E isso responsabiliza enormemente os atores políticos e também cada um de nós.

Num tempo em que muitos sentem uma ecoansiedade face a um mundo que tarda em adotar rotas de desenvolvimento mais sustentáveis, talvez fosse a altura certa para promover ecoações coletivas, tendo como principal eixo estruturante a preservação da nossa insubstituível Casa Comum.

*Prof. associada com agregação da UMinho

QOSHE - Clima: (ainda) não está tudo perdido - Felisbela Lopes
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Clima: (ainda) não está tudo perdido

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04.11.2022

Começa, no próximo domingo, em Sharm-el-Sheikh, no Egito, a COP27. Para além de repensar políticas para diminuir as emissões de gases com efeito de estufa e para melhor nos adaptarmos às inevitáveis consequências das alterações climáticas, esta conferência do Clima tem de colocar como prioridade máxima a ajuda financeira aos países mais pobres. E olhar para o (mau) estado do planeta de forma pragmática. Não está tudo perdido. Apenas é um bocadinho tarde.

Em capa, a revista "The Economist" afirmava ontem que é preciso "dizer adeus à meta de aquecimento de 1,5 graus centígrados", considerando isso um objetivo hercúleo fixado na bem-intencionada conferência de........

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