Beneficiando de uma estima coletiva que resulta essencialmente da enorme afeição por Isabel II, o rei Carlos III terá vários desafios pela frente. Por exemplo: impedir que a monarquia possa ser vista como algo anacrónico; criar uma base sólida para proporcionar, a partir da coroa, alguma estabilidade ao país; e definir para si uma marca de legitimidade. Para isso, terá de colocar de lado certos caprichos.

Quando, no passado sábado, Carlos III assinou o documento oficial que o tornava rei, demonstrou uma certa irritação por ver na mesa objetos que lhe dificultavam a escrita. Poderia tê-los desviado discretamente, mas preferiu esperar que os seus colaboradores fizessem isso por ele e o momento tornou-se viral nas redes sociais. Na terça-feira, salientar-se-ia outra birra: durante a assinatura do livro de visitas do Castelo de Hillsborough, na Irlanda do Norte, o rei exasperou-se quando a caneta de tinta permanente que usava começou a verter tinta na sua mão. Levantou-se e atirou para o ar uma frase que causa estupefação: "já não posso mais com isto,... sempre a mesma porcaria". Em tempo de luto, estas reações são toleradas. Depois, ninguém as compreenderá.

Talvez não seja fácil dominar estes ímpetos, quando se passou longos anos a reagir prontamente àquilo de que não se gostava. No primeiro discurso que fez à nação depois da morte de Isabel II, Carlos prometeu seguir o exemplo da mãe, mas os média interrogam-se em permanência se o rei conseguirá deixar de lado certas extravagâncias e, acima de tudo, o seu ativismo militante.

São conhecidas as pressões que, ao longo do tempo, foi exercendo sobre ministros e até primeiros-ministros. Por outro lado, também se revelam incómodas certas posições. Em 2014, comparou Vladimir Putin a Hitler; após a vitória presidencial de Donald Trump, disse que o momento trazia até si "ecos profundamente perturbadores dos dias sombrios da década de 1930". Dentro de portas, foi pressionando os sucessivos governos com questões que iam da exigência de melhores equipamentos para os soldados britânicos no Iraque a hospitais, moradias rurais ou financiamentos em prol daquilo que é uma paixão para si: as medicinas alternativas.

Semanalmente, Carlos III terá encontros com a primeira-ministra Liz Truss. Serão dois estreantes à procura de caminhos seguros. Tendo durante uma década ido ao encontro da rainha em cada semana, Tony Blair confessou, por estes dias, que foi sempre incapaz de lhe definir uma posição política. Será difícil este rei ter semelhante recato, mas deveria esforçar-se por isso. Para bem de uma nação atualmente à deriva.

*Prof. associada com agregação da UMinho

QOSHE - Carlos III passará das birras aos desafios? - Felisbela Lopes
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Carlos III passará das birras aos desafios?

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16.09.2022

Beneficiando de uma estima coletiva que resulta essencialmente da enorme afeição por Isabel II, o rei Carlos III terá vários desafios pela frente. Por exemplo: impedir que a monarquia possa ser vista como algo anacrónico; criar uma base sólida para proporcionar, a partir da coroa, alguma estabilidade ao país; e definir para si uma marca de legitimidade. Para isso, terá de colocar de lado certos caprichos.

Quando, no passado sábado, Carlos III assinou o documento oficial que o tornava rei, demonstrou uma certa irritação por ver na mesa objetos que lhe dificultavam a escrita. Poderia tê-los desviado discretamente, mas preferiu esperar que os seus........

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