menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

As procissões da Semana Santa em Braga

14 0
03.04.2026

Em cada ano, desde criança, ali estou eu, nas ruas, a testemunhar algumas celebrações quaresmais que, em Braga, adquirem uma autenticidade irreplicável. Cada manifestação reflete fé (para os crentes), solenidade e uma força que nenhuma palavra consegue agarrar. Nesta noite, as luzes apagam-se e, pelas artérias do centro, deslizará a procissão Ecce Homo, com figurantes vestidos de negro, carregando um silêncio, pontuado pelo som de baluartes que se arrastam pela calçada e pelas forquilhas daqueles que carregam os andores, que se batem compassadamente no chão, como se cada passo ecoasse o batimento do coração da cidade.

São dias solenes estes que, em Braga, nos conduzem até ao domingo de Páscoa. Nesse dia, o Compasso Pascal leva a cruz a beijar a cada casa. Com a cidade a crescer em altura e em extensão, não é tarefa fácil organizar um itinerário dessa dimensão e isso consegue-se pela adesão expressiva de cidadãos comprometidos com a vida coletiva.

Esse compromisso revela-se de forma mais evidente na procissão Vós Sereis o Meu Povo (também conhecida como Procissão da Burrinha) que, anteontem, percorreu grande parte do Centro Histórico de Braga. Com mais de 800 figurantes, a manifestação reconstitui a Aliança de Deus com o seu povo, em quadros que evocam o chamamento de Abraão, atravessam a Era dos Patriarcas, passam pela libertação conduzida por Moisés e chegam à infância de Jesus, incluindo a icónica fuga de José e Maria com o Menino montado numa burrinha. Numa organização conjunta da paróquia e da Junta de Freguesia de S. Vítor, esta iniciativa dá a ver uma comunidade que se reúne com determinação e alegria contagiantes. No final, o cortejo remata-se com a hierarquia da Igreja e com entidades locais, e o modo natural como o arcebispo primaz de Braga e o presidente da Câmara vão trocando ligeiras impressões e sorrindo sintetiza a essência destes dias: uma celebração que une e fortalece os laços coletivos.

O programa da Quaresma é uma marca fortíssima de Braga. Costumo dizer que não há nada mais genuíno para um bracarense do que estas celebrações. Acompanhe-se, por exemplo, o grupo de farricocos que, na Quinta-Feira Santa, chama os fiéis à penitência através do som de estridentes matracas ou o modo ordenado como se desenvolvem as procissões (deem um salto a Sevilha e comparem cortejos semelhantes).

Em nenhum ponto do país será possível promover assim um programa, porque faltará sempre um valor central: a autenticidade. Por isso, seria desejável que a partir daqui se robustecessem estas manifestações, enriquecendo o programa, envolvendo ainda mais pessoas (sobretudo os mais jovens) e criando outras centralidades, noutros espaços, com outras expressões, sem nunca deixar para trás estas que já hoje atraem tanta gente.


© Jornal de Notícias