É conhecido o uso da expressão "trocar a beira da estrada pela estrada da Beira", como forma de simbolizar um equívoco evidente, sobretudo quando o mesmo resulta de evidências e factos que nos conduzem a conclusões erradas.

As imagens esmagadoras dos incêndios florestais das últimas semanas, do Algarve a Murça, até à mais recente destruição pelo fogo de parte do património natural da serra da Estrela, podem levar a postular soluções, baseadas em factos, que na realidade estarão longe da simplicidade que aparentam. Como afirmou o presidente do IPMA, as situações são cada vez mais complexas, prolongadas, exigindo por isso mesmo a adoção de políticas sólidas e a flexibilidade necessária à variabilidade imprevisível de muitas das ocorrências.

É um facto que durante muitos anos os milhares de guardas florestais e cantoneiros constituíram uma espécie de primeira guarda avançada da manutenção regular do território florestal, incluindo caminhos e estradas nacionais. Mas seria possível hoje o Estado manter toda essa rede humana alargada aos milhares de quilómetros de estrada entretanto construídos, nos moldes em que todo o sistema funcionou durante décadas? E como poderia o Estado garantir a limpeza da maioria dos terrenos de floresta privada, que então partilhavam o dia a dia com essas brigadas do setor público florestal? Será que a economia de sobrevivência era um desígnio a manter? Pese os factos identificados, não nos parece que a reposição do passado seja a solução milagrosa que alguns preconizam. Da mesma forma que é errado concluir que o aumento do número de incêndios tem uma relação direta com a área de eucalipto.

O esforço do Governo deve ser registado, mas também mostra que o problema não tem esta via única de resolução, antes mais terá de resultar de um esforço que a todos envolva na defesa do nosso património natural.

*Reitor da UTAD

QOSHE - A beira da estrada florestal - Emídio Gomes
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A beira da estrada florestal

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19.08.2022

É conhecido o uso da expressão "trocar a beira da estrada pela estrada da Beira", como forma de simbolizar um equívoco evidente, sobretudo quando o mesmo resulta de evidências e factos que nos conduzem a conclusões erradas.

As imagens esmagadoras dos incêndios florestais das últimas semanas, do Algarve a Murça, até à mais recente destruição pelo fogo de parte do património natural da serra da Estrela, podem levar a postular soluções, baseadas em factos, que na........

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