Quem cria a marca fica com o valor |
Durante muitos anos, a economia portuguesa especializou-se em produzir bem para outros. Em vários setores, a qualidade do que se faz em Portugal é reconhecida internacionalmente. Contudo, uma parte significativa do valor criado ao longo da cadeia acaba por ficar com quem está mais próximo do consumidor final. A diferença raramente está na fábrica. Está quase sempre na marca.
Quem controla a marca não vende apenas um produto. Controla a relação com o mercado, define a narrativa e capta uma fatia maior do valor económico; é uma vantagem silenciosa, mas decisiva. Muitas economias compreenderam isso cedo e fizeram da construção de marcas um pilar da sua estratégia. Em Portugal, essa consciência tem crescido, mas continua a avançar devagar. E não é por falta de talento, pois, ao longo dos últimos anos, surgiu uma nova geração de empreendedores com uma forma diferente de olhar para o mercado. Muitos já não pensam apenas em prestar serviços ou desenvolver tecnologia para terceiros, pensam em criar produtos próprios, construir identidade e afirmar presença nos mercados internacionais.
É aqui que as startups podem desempenhar um papel importante: algumas nascerão naturalmente com vocação para criar marcas globais; outras terão um impacto menos visível, mas igualmente transformador. Ao trabalhar com empresas estabelecidas, levam inovação, novas formas de pensar o produto e novas linguagens de mercado. Dessa interação, entre startups e PME podem surgir novos posicionamentos e, muitas vezes, novas marcas.
Este encontro entre inovação jovem e experiência industrial pode ser uma das oportunidades mais interessantes da economia portuguesa. Muitas PME conhecem profundamente os seus setores, dominam processos produtivos e acumulam décadas de experiência. O que por vezes lhes falta é precisamente o impulso criativo e estratégico que transforma capacidade produtiva em proposta de valor reconhecida.
Criar marcas não é apenas comunicação, é uma escolha económica. Exige visão, investimento e consistência ao longo do tempo. Exige também um contexto que valorize essa ambição. Políticas públicas que incentivem a proteção da propriedade intelectual, a internacionalização e a capitalização das empresas podem ajudar a acelerar este movimento.
Portugal já provou que sabe produzir com qualidade. O desafio agora é mais ambicioso: transformar esse conhecimento em marcas que representem valor, identidade e presença internacional. A próxima etapa da economia portuguesa pode começar exatamente aí, no momento em que deixarmos de produzir apenas para os outros e passarmos a construir, com mais confiança, algo verdadeiramente nosso.