À nossa porta

Durante o genocídio do povo palestiniano que sucedeu ao sete de outubro, era comum ouvirmos, das vozes críticas ao sionismo de Netanyahu que, autorizando o massacre do povo palestiniano, estávamos a dar carta branca para o massacre de qualquer outro povo e que se naquele momento a violência deflagrava na Palestina, amanhã seria à nossa porta. Ora, houve muito quem pensasse que esses apelos eram hiperbólicos, líricos ou pouco literais, mas hoje, com o que se passa no Irão e no Líbano, percebemos que, de facto, o Governo de Israel sente as costas suficientemente quentes para atacar e causar o caos no Mundo, sem que nem o direito internacional, nem ninguém consiga deter os seus ímpetos bélicos e expansionistas.

Os impactos económicos da guerra que alastra no Médio Oriente já se fazem sentir no nosso bolso, mas não será apenas a gasolina a subir, serão os alimentos, as taxas de juro, todos os bens essenciais.

Com mais inflação, num contexto em que o custo de vida já é muito alto para os bolsos da maioria, aumenta o descontentamento político que favorece o crescimento da extrema-direita na Europa. Com o crescimento da extrema-direita na Europa, a continuação do projeto europeu é uma impossibilidade, o que interessa a Trump, a Putin e a toda a quadrilha de supervilões que comanda o Mundo (e que muito dinheiro ganha com a subida do gás e do petróleo causada por esta guerra).

Caso a guerra alastre e a Europa seja arrastada para ela, na escalada de um conflito mundial, essa ideia tida como simbólica de que amanhã será à nossa porta passa a ser ainda mais real. Sendo que não há mãe europeia que queira ver os seus filhos a partir para uma guerra, muito menos uma causada por um autocrata irresponsável e sem estratégia, à mercê de um sionista fanático e genocida. Todos os cenários são péssimos e em todos perdemos nós e ganham eles. Sendo que, neste momento, já temos indícios suficientes de que Israel não tem qualquer interesse em frear a escalada do conflito e que Trump, mesmo que queira, já não consegue sair com uma pseudovitória em tempo útil.

Irónico é pensar que, com tudo isto, se fala cada vez menos da Palestina (e, já agora, da Cisjordânia) que continua a ser a maior vítima da cegueira expansionista do Governo de Israel. Fala-se muito pouco de Cuba, que neste momento está sem luz, sem recolha de lixo, sem combustível, sem medicamentos e sem comida, com a população a morrer à fome, pelo estrangulamento que os EUA decidiram impor, depois de décadas de bloqueio. Fala-se menos da Ucrânia, deixando Putin mais do que satisfeito, e já ninguém se lembra do caso Epstein.

Ainda assim, para esta Europa dormente, ainda é pouco claro que os EUA e Israel não só deixaram de ser "aliados", como são as grandes ameaças para a paz, a prosperidade e a estabilidade no Mundo.


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