Em altura de eleições, sejam elas quais forem, há sempre quem tente erradamente estabelecer uma relação entre renovação política e caras novas. Então, mas desde quando é que renovação significa coisas diferentes? O próprio "Querido, mudei a casa" quando vai a casa das pessoas aquilo resulta muitas vezes em colar papel de parede por cima e dar umas demãos no aparador. Em partidos não é muito diferente.

O maior partido da Oposição tem um novo líder que se parece muito, é verdade, com um antigo líder de bancada do PSD. Porque isso de ter sangue novo na política é muito overrated. Se a laranja, neste caso, não cheira muito mal, para que é que vamos estar a mandar fora? Estamos em 2022, o ano da luta contra o desperdício. O novo presidente do PSD pode ter o aspeto de um Luís Montenegro de 2017, mas é hoje um Luís Montenegro completamente diferente por dentro. Não por se ter ido encontrar numa viagem à Índia, mas por ter ido perder contra o Rui Rio na Rua de São Caetano à Lapa. Desta vez foi contra Jorge Moreira da Silva e ganhou.

O braço-direito de Luís Montenegro é o fresquíssimo Hugo Soares, ex-deputado e ex-líder da JSD, que ficou conhecido pelo seu trabalho ao nível de referendar direitos conquistados como o da adoção e coadoção por casais do mesmo género. Mas pronto, é possível que isso fosse o Hugo Soares de 2014, numa altura maluca em que ainda a TVI achava que uma sequela da telenovela "Jardins proibidos" era uma boa ideia. Estes foram provavelmente devaneios próprios de juventude partidária, até porque a determinada altura também chegou a dizer "Acho que Passos Coelho vai sair como o melhor primeiro-ministro da História de Portugal". E não ter dito na altura, "e mais: melhor primeiro-ministro do Mundo, do Universo e é mais forte que o Batman", foi uma sorte.

Mas, bom, tanto quanto sei, o novo líder do PSD não fala alemão, não toca bateria nem, tanto quanto sabemos, é proprietário de uma caldeira elétrica para aquecer os seus banhos, mas como Rui Rio, Luís Montenegro também é certamente um homem com muitos talentos. É indiscutível que o Luís Montenegro pode ter atributos que o tornam no líder com os tintins de ferro que o PSD precisa neste momento, na medida em que foi nadador-salvador em Espinho, onde a água é muito fria. Se o Chicão tivesse estas qualificações, talvez o CDS não tivesse morrido na praia.

Foi muito polémica uma afirmação que fez na altura do Governo de Passos Coelho, em que dizia "a vida das pessoas não está melhor, mas a do país está muito melhor", como quem diz "a qualidade de vida dos portugueses é deprimente, mas agora o país está com uns indicadores de perder a cabeça". Mas, pronto, a verdade é que toda a gente tem esqueletos no armário. No caso de Luís Montenegro, esses ossinhos são os que na altura da troika se salientaram no corpinho de muitos portugueses pela grave crise económica que se atravessou. Dessa altura, há quem diga que um dos legados do PSD foi o lançamento de André Ventura na política. A aposta num comentador de futebol que fez campanha contra as minorias desde o primeiro dia. Até o CDS, quando ouviu tais declarações, retirou o apoio ao candidato à Câmara de Loures. Fez lembrar aquelas declarações do Filipe Lobo d"Ávila, deputado do CDS aquando da proposta de referendo do PSD sobre a adoção e da coadoção, que afirmou que "O CDS não a inviabilizará. O destino desta proposta de referendo dependerá exclusivamente da bancada do PSD". Uma coisa que podemos concluir é que este PSD fez muitas vezes o CDS brilhar e foi se calhar um Rui Rio, mais alinhado com o Governo PS, que não nos deu oportunidade para pensar "olha, tu queres ver? Olha que o CDS nem esteve mal".

Mas o importante é que o novo líder do PSD já garantiu que vai ouvir todas as vozes fora da política e que vai "calçar os sapatos de toda a gente". Espero que calce todos, incluindo os da Abibas, só para irritar o seu ex-colega de partido André Ventura.

*Humorista

QOSHE - Querido, mudei a São Caetano à Lapa - Cátia Domingues
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

Querido, mudei a São Caetano à Lapa

4 2 6
10.07.2022

Em altura de eleições, sejam elas quais forem, há sempre quem tente erradamente estabelecer uma relação entre renovação política e caras novas. Então, mas desde quando é que renovação significa coisas diferentes? O próprio "Querido, mudei a casa" quando vai a casa das pessoas aquilo resulta muitas vezes em colar papel de parede por cima e dar umas demãos no aparador. Em partidos não é muito diferente.

O maior partido da Oposição tem um novo líder que se parece muito, é verdade, com um antigo líder de bancada do PSD. Porque isso de ter sangue novo na política é muito overrated. Se a laranja, neste caso, não cheira muito mal, para que é que vamos estar a mandar fora? Estamos em 2022, o ano da luta contra o desperdício. O novo presidente do PSD pode ter o aspeto de um Luís Montenegro de 2017, mas é hoje um Luís Montenegro completamente diferente por dentro. Não por se ter ido encontrar numa viagem à Índia, mas por ter ido perder contra o Rui Rio na Rua de São Caetano........

© Jornal de Notícias


Get it on Google Play