Chega o verão e começa aquela altura do ano em que começamos a ouvir sotaques do estrangeiro, em todos os cantos deste pequeno país. No entanto, tenho reparado que, para além do clássico "vien ici, João Rafael! Sai do mar e vien manger um bocadinho de tripas à moda do Porto, s"il vous plait!", se ouve cada vez mais inglês dos filmes. Parece que, no último ano, foi registado um aumento de 45% de novos residentes americanos em Portugal. Mais uma vez, os americanos invadem um país essencialmente pelos seus recursos naturais. Neste caso, peixinho fresco e sol durante quase todo o ano.

Uma das maravilhas do nosso país é a diversidade, que nos acrescenta tanto valor humano e cultural, mas só pela graça, devíamos fazer umas partidas no serviço de fronteiras, como nos Estados Unidos se costuma fazer com pessoas mais moreninhas. Chamávamos a nossa versão do Uncle Sam, o Tio Careca, Nuno Graciano, que é especialista dos apanhados, e resultava um conteúdo giro. É que nós não temos o tal símbolo do Uncle Sam, essa representação de patriotismo americano, mas temos a figura do Tio Careca. Uma pessoa que esteve anos lá em cima e que, de repente, seja na indústria dos derivados de laticínios seja num partido de extrema-direita, teve de tentar safar-se de qualquer maneira para ganhar a vida. Se pensarmos bem, isto também nos representa a todos de alguma forma.

A maioria das pessoas que vêm para cá são reformados e nomádas digitais que encontram em Portugal o sítio perfeito para o trabalho à distância. Mas isto do trabalho remoto começa a ficar descontrolado. É que já longe vai o tempo em que o senhor Armando do café não nos deixava ocupar as mesas do meio dia às três. Agora, todos os cafés são escritórios. Para além de só servirem comida que fica bem com o filtro Sierra do Instagram, têm de ter tomadas de eletricidade, wi-fi...e cheira-me que não vai demorar muito até encontramos no snack-bar O Rebuçado, uma fotocopiadora ao lado do moinho de café, colegas que se enrolam em cima da arca dos gelados e bolinhos secos que a Mónica da contabilidade faz às sextas-feiras. Ainda no outro dia, fui a um destes espaços beber um café pingado, vejam lá bem. Ficou tudo a olhar para mim. A malta nos escritórios tem de encontrar sempre alguém para implicar.

Temos um custo de vida mais baixo para os padrões norte-americanos, temos acesso a cuidados de saúde gratuitos, temos um programa dos residentes não habituais, que é um programa que permite a alguns residentes estrangeiros pedirem isenções fiscais durante 10 anos, e temos segurança, isto até estas pessoas descobrirem a posição da CMTV na box. Mas com tudo isto, receio estarmos a criar mais um problema de divisão social nos Estados Unidos. É que estes cidadãos americanos chegam cá e percebem que o socialismo não é o tal bicho-papão. E, se sabemos alguma coisa sobre os Estados Unidos, é que não há pior coisa para uma família que ter um socialista na mesa do Acção de Graças.

O que, como consequência, tem aumentado de forma galopante são os preços das casas para arrendar. Segundo dados do Imovirtual, em abril, registou-se um aumento de 200 euros no valor das rendas. Mais 19% do que no mês anterior. A este ritmo, não faltará muito para que, especialmente no Porto e em Lisboa, os Santos Populares, regados a Cherry Cola e a sardinhas em molho barbecue, se tornem o concurso "Popular Saints", em que, todos os anos, ganha o santinho com mais likes. Sempre muito renhido entre o Santo António e o São João, mas vencerá o São João, porque uma ovelhinha rende sempre mais likes nas redes que um simples bebé ao colo, seja ele o nosso salvador filho de Deus Nosso Senhor ou não.

Depois do "sonho americano", que levou e leva muita gente à América do Norte para tentar ter uma oportunidade de vencer na vida, eis o sonho português a aparecer e a dançar o corridinho na cara das inimigas. Camionetas cheias de americanos a vir para Portugal, porque o sonho português é superior. Que tempos loucos estes! É possível que muitos de vocês não estejam agora a ver o que é isto do sonho, porque passam pouco tempo a dormir, dado que no dia a seguir, às seis e meia da manhã, têm de estar a pé para conseguir apanhar o comboio das sete e um quarto, porque se perderem o outro só vem às sete e quarenta e se chegarem atrasados à fábrica perdem o prémio de assiduidade, que é o que, no final do mês, vai para o frigorifico que está a ser pago às prestações. Geralmente, os sonhos portugueses que se costumam tornar realidade para muitas destas famílias são os de açúcar e canela na mesa da ceia de Natal.

Humorista

QOSHE - O sonho português - Cátia Domingues
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O sonho português

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05.06.2022

Chega o verão e começa aquela altura do ano em que começamos a ouvir sotaques do estrangeiro, em todos os cantos deste pequeno país. No entanto, tenho reparado que, para além do clássico "vien ici, João Rafael! Sai do mar e vien manger um bocadinho de tripas à moda do Porto, s"il vous plait!", se ouve cada vez mais inglês dos filmes. Parece que, no último ano, foi registado um aumento de 45% de novos residentes americanos em Portugal. Mais uma vez, os americanos invadem um país essencialmente pelos seus recursos naturais. Neste caso, peixinho fresco e sol durante quase todo o ano.

Uma das maravilhas do nosso país é a diversidade, que nos acrescenta tanto valor humano e cultural, mas só pela graça, devíamos fazer umas partidas no serviço de fronteiras, como nos Estados Unidos se costuma fazer com pessoas mais moreninhas. Chamávamos a nossa versão do Uncle Sam, o Tio Careca, Nuno Graciano, que é especialista dos apanhados, e resultava um conteúdo giro. É que nós não temos o tal símbolo do Uncle Sam, essa representação de patriotismo americano, mas temos a figura do Tio Careca. Uma pessoa que esteve anos lá em cima e que, de........

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