Hoje é o melhor dia para casar sem sofrer nenhum desgosto, e vocês aqui. Quer dizer, espero que não estejam a ler isto enquanto esperam uma noiva no altar, até porque é capaz de haver uma ou outra notícia sobre a inflação e depois dão por vocês a pensar no balúrdio que vos vai custar o dia de hoje e quebra-se um bocado o ambiente. Se estão a ler isto e são convidados no casamento, esperem até ao tiro de partida para a mesa dos queijos e da cascata de camarão para encher o jornal de nódoas ou então aguardem até estar de gravata na cabeça ao som do "apita o comboio", porque é capaz de esta página ter mais graça.

Amanhã, além de "entrar a gosto", segundo o poeta Quim Barreiros, metade do país entra de férias e a outra fica contente por começar a haver menos trânsito para ir para o trabalho. Eu faço parte do primeiro grupo. Vou de férias e só regresso em setembro e, como na escola, vou voltar com canetas de cores novinhas para escrever este trabalho de casa. As férias são um período especial nas nossas vidas porque têm tanto de descanso como de stress. Preparar uma família para ir de férias é capaz de ser a melhor premissa para um programa de televisão. Se já tentaram fazer um em que mães escolhiam as pretendentes para os seus filhos, podiam fazer um em que as mães tentam meter o recheio de um T2 num Renault Clio para rumarem ao Algarve. Fazer as vinte sete malas com roupa, comida, cadeiras de praia, geleira e um crocodilo insuflável que, como não cabe na mala, vai em cima do puto de três anos, que passa o caminho todo a chorar. Parar doze vezes nas estações de serviço para fazer xixi e comprar um rissol de leitão que custa quase metade do subsídio de férias. Depois, chega-se ao destino, o puto vai a correr para a piscina e começa a urinar na água, mas os pais querem lá saber; com a sorte que têm, calham na espreguiçadeira ao lado de outra família que está a ouvir música brasileira numa coluna, enquanto as mais novas fazem danças para o Tiktok. E pronto. São quase duas semanas nisto.

Quem não vai para hotéis ou casas alugadas, vai para a chamada "terra". Eu fiz parte deste grupo de pessoas durante muitos anos. Acordar às sete da manhã para ir pela fresca. De Lisboa ao Minho, eram muitas horas e não ajudava que no leitor de cassetes do Datsun só tocasse cantares ao desafio ou os grandes êxitos da música popular portuguesa. Com o calor e as curvas do caminho, posso dizer que vomitei muitas vezes ao som do duo Ele&Ela de Lena Silva e José Crispim. Tudo isto para ter aquelas semanas típicas de quem vai de férias para a terra que consiste em: comer, roubar uvas aos vizinhos, passear, jogar matraquilhos no café da aldeia, tomar banho nos tanques e experienciar o preconceito com emigrantes: os "avecs". Se o preconceito com emigrantes está normalmente associado a roubo ou destruição, o preconceito com "avecs" está ligado a aparecer com carros topo de gama e falarem com sotaque estrangeiro. Nunca percebi muito bem esta aversão mas, a bem da verdade, eu tinha alguma inveja porque nas festas populares, os filhos dos emigrantes parecia que tinham sempre fichas ilimitadas para os carrinhos de choque e eu se quisesse andar mais tinha de ser à pendura de algum. O regresso a Lisboa era sempre triste e inesperado, porque duas semanas pareciam todo o tempo do mundo e ao mesmo tempo pouco tempo. Era altura de desfazer as camas, fechar a casa, empacotar tudo com a dificuldade acrescida de ter de levar três lampreias, cinco garrafões de vinho verde e charcutaria suficiente para abrir um talho no dia a seguir.

Se repetisse isto hoje, a maior parte das pessoas seria desconhecida. Também já não iria caber no tanque e roubar uvas maduras ao vizinho não seria um crime menor, mas todos os agostos são o mês de voltar à terra, mesmo que não ponha lá os pés.

*Humorista

QOSHE - Fechado para férias. Abre em setembro - Cátia Domingues
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Fechado para férias. Abre em setembro

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31.07.2022

Hoje é o melhor dia para casar sem sofrer nenhum desgosto, e vocês aqui. Quer dizer, espero que não estejam a ler isto enquanto esperam uma noiva no altar, até porque é capaz de haver uma ou outra notícia sobre a inflação e depois dão por vocês a pensar no balúrdio que vos vai custar o dia de hoje e quebra-se um bocado o ambiente. Se estão a ler isto e são convidados no casamento, esperem até ao tiro de partida para a mesa dos queijos e da cascata de camarão para encher o jornal de nódoas ou então aguardem até estar de gravata na cabeça ao som do "apita o comboio", porque é capaz de esta página ter mais graça.

Amanhã, além de "entrar a gosto", segundo o poeta Quim Barreiros, metade do país entra de férias e a outra fica contente por começar a haver menos trânsito para ir para o trabalho. Eu faço parte do primeiro grupo. Vou de férias e só regresso em setembro e, como na escola, vou voltar com canetas de cores novinhas para escrever........

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