Setembro é aquela altura em que revemos os nossos coleguinhas, voltamos a fazer marmita para o almoço e estreamos dossiers para organizar as faturas para validar depois no portal das Finanças. Acabaram-se as férias de verão. Este ano, decidi rumar até a um resort no Caribe para matar as saudades do espírito da viagem de finalistas do Secundário: má comida e álcool com fartura, playlists com reggaeton o dia inteiro e festas da espuma.

Para os que nunca foram, eu vou fazer aqui serviço público e contar o que podem esperar numa aventura destas. Primeiro, um resort de praia é como a Rua da Oura no Algarve concentrada na medida em que é um espaço com centenas de turistas de chinelo no pé e lojas de bugigangas demasiado caras. Já a comida é sempre uma experiência sensorial única. Ao contrário dos restaurantes da moda que têm a refeição organizada por momentos, nestes sítios a lógica é viver um único momento como se fosse o último, no sentido em que se baseia sempre num buffet onde podes juntar uma salada de fruta a um prato de ensopado com puré, logo ao pequeno-almoço. Depois têm piscinas dentro de piscinas, jacuzzis dentro de piscinas e piscinas que também são bares de cocktails martelados que começam a fazer fila às nove da manhã. Depois tens de pensar se queres férias para descansar, porque aqui há uma pressão muito grande para o impedir. Queres ouvir as ondas do mar? Não vai ser possível porque o artista Bad Bunny lançou um hit novo, Queres ler? Porque raio, se está a haver batalha de twerk à beira da piscina? E é isto. Todos. Os. Dias. Há festa na praia, há gincana, há bingo, há karaoke, há zumba, há aulas de merengue......é capaz de haver mais "atividades" a decorrer num resort do que naquelas colónias de férias para os miúdos organizadas pela junta de freguesia. Eu tenho dúvidas que até o próprio João Baião aguentasse tanta animación de seguida. Se ao 6º dia o Senhor descansou, foi porque Deus Nosso Senhor não estava num all-included no Caribe, de certeza.

Ao mesmo tempo, é o mais perto que muitos de nós estamos de viver numa aldeia porque em dois dias conhecemos praticamente toda a gente. Vamos às compras no mesmo sítio, comemos no mesmo restaurante e já sabemos que a Carla anda a trair o marido com o do quarto 117.

Outra coisa característica deste tipo de turismo são as excursões que se organizam para visitar outros pontos turísticos. É que podes estar num sítio paradisíaco mas vais querer visitar sítios ainda mais paradisíacos. Não chega aquele paraíso para o qual pagaste demasiado dinheiro por uma pulseirinha. Não, não. Dia 3 e estamos a fazer uma viagem de duas horas de catamarã para outro sítio ainda mais paradisíaco. Porque este é um paraíso, mas ali ao lado é ainda mais paraíso. E que dás por ti a perceber que a ideia de "um lugar no paraíso" tem um preço e representa quase meio ordenado mínimo para passar lá pouco mais de meio dia. E nesse outro paraíso não podes comer, nem beber nem podes trocar de toalhas de praia, quando te apetece. Mas pronto, é mais paraíso e eu quero todo o paraíso que conseguir numa semana. Chupem. Não sei se é por isto que os terroristas se matam. Mas se for, alguém lhes diga que não é preciso porque tenho a certeza que com a quantidade de serviços que se oferece nestes sítios, se ligarem para a receção, por mais 99 dólares arranjam as 72 virgens.

*Humorista

QOSHE - Férias das férias - Cátia Domingues
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Férias das férias

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04.09.2022

Setembro é aquela altura em que revemos os nossos coleguinhas, voltamos a fazer marmita para o almoço e estreamos dossiers para organizar as faturas para validar depois no portal das Finanças. Acabaram-se as férias de verão. Este ano, decidi rumar até a um resort no Caribe para matar as saudades do espírito da viagem de finalistas do Secundário: má comida e álcool com fartura, playlists com reggaeton o dia inteiro e festas da espuma.

Para os que nunca foram, eu vou fazer aqui serviço público e contar o que podem esperar numa aventura destas. Primeiro, um resort de praia é como a Rua da Oura no Algarve concentrada na medida em que é um espaço com centenas de turistas de chinelo no pé e lojas de bugigangas demasiado caras. Já a comida é sempre uma experiência sensorial única. Ao contrário dos restaurantes da moda que têm a........

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