Entrar na universidade tinha sabor de vida adulta. Era aquela altura em que, pela primeira vez, muitos de nós saíam de casa dos pais. Lembram-se da vossa vida de estudante? Recordam-se daqueles anos feitos de noites sem dormir? Parece que agora continua igual.

Antes as noites eram passadas em claro por duas razões: ou porque a saída de grupo, que começou inevitavelmente com um jantar de bifinhos com cogumelos e jarros de sangria à discrição que são emborcados sempre que alguém pega num copo com a mão direita - porque toda a gente sabe que mão direita é penálti, é penálti! - se prolongou até de madrugada ou porque o professor marcou para amanhã a entrega de um trabalho sobre a hermenêutica e os filósofos alemães do século XVIII e XIX. Hoje em dia, os estudantes também fazem diretas mas porque não têm uma cama para se encostar. Depois do programa Estudo em Casa para responder à pandemia, o Governo cria agora outro programa inovador que é o Estudo Sem Casa.

Os dados indicam que só há 15 mil camas em residências universitárias para mais de 108 mil alunos que têm de sair de casa para estudar. Ou seja, nem adotando aquela ideia de alojamento muito popular em explorações agrícolas se conseguiria resolver o problema. Para responder a isto, o primeiro-ministro anunciou esta semana um investimento de 375 milhões de euros no apoio ao alojamento destes estudantes e assumiu que a meta é ter 26 mil camas até 2026. Ficamos a saber que o Governo estava afinal a preparar o regresso às aulas para 2026, mas de repente meteu-se 2022 e trocou um bocado as voltas. O ano letivo de 2022 é uma tragédia, mas o que vai arrancar daqui a quatro anos é excelente. Até lá, o aluno que tiver entrado agora tem de fazer um esforço para ver o lado positivo: não vai ter trabalhos de casa porque não tem uma e pode não passar às cadeiras do curso, mas vai poder passar pelas brasas em bancos de jardim.

No que diz respeito a aluguer de quartos privados, a oferta é tão pouca e os preços são tão elevados que, se nem um gestor de topo consegue alugar um T1 nos arrabaldes, quanto mais um estudante de economia e gestão do primeiro ano. E, segundo alguns relatos, é mais difícil passar na entrevista com o senhorio, do que com os recursos humanos de uma empresa do PSI20.

Quem é o culpado desta situação? Os mais distraídos diriam o Governo, que não se dedicou o suficiente para mitigar este problema que se vem a arrastar há anos. Mas se pensarmos bem, não estaríamos neste imbróglio se não fossem os espertinhos dos encarregados de educação deste país. Sim. Esses irresponsáveis que dizem aos mais novos coisas como "ter um canudo é muito importante" ou "estuda para seres alguém na vida" ou ainda o gravíssimo "podes ser o que quiseres. Segue os teus sonhos" e depois admiram-se que 2022 tenha sido o segundo ano com o maior número de colocados de sempre. Enfim. Sabem quem é que não teve este problema? O Cristiano Ronaldo. O Ryan Goslin. O tipo do iPhone.

Em 1933, no filme "A canção de Lisboa", Vasco Santana tornava célebre o fado do estudante.

Hoje, a letra mudou ligeiramente para acompanhar a evolução dos tempos:

Que negra sina ver-me assim/Que sorte vil e degradante/Ai que saudades eu sinto em mim/De um quarto com uma estante/Lailailailai lararala lailailailai.

*Humorista

QOSHE - Estudo Sem Casa - Cátia Domingues
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Estudo Sem Casa

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18.09.2022

Entrar na universidade tinha sabor de vida adulta. Era aquela altura em que, pela primeira vez, muitos de nós saíam de casa dos pais. Lembram-se da vossa vida de estudante? Recordam-se daqueles anos feitos de noites sem dormir? Parece que agora continua igual.

Antes as noites eram passadas em claro por duas razões: ou porque a saída de grupo, que começou inevitavelmente com um jantar de bifinhos com cogumelos e jarros de sangria à discrição que são emborcados sempre que alguém pega num copo com a mão direita - porque toda a gente sabe que mão direita é penálti, é penálti! - se prolongou até de madrugada ou porque o professor marcou para amanhã a entrega de um trabalho sobre a hermenêutica e os filósofos alemães do século XVIII e XIX. Hoje em dia, os estudantes também fazem diretas mas porque não têm uma........

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