Esta crónica devia estar na secção de obituário do jornal. Há uns dias, faleceu uma estrela que se vai juntar ao afamado clube dos 27, aquele grupo de pessoas que faleceram aos 27 anos, do qual fazem parte artistas como Kurt Cobain, Amy Winehouse ou Janis Joplin, que ganhou esta semana mais um membro: o motor de busca Internet Explorer.

Era tão novo. Embora ninguém possa dizer que foi de repente. É que, na verdade, mais parecia que tinha 87, dado que estava sempre a cair, era demasiado lento e andava sempre com cookies nos bolsos. Foi criado em 1995 pela Microsoft, numa altura em que o presidente dos Estados Unidos era o Bill Clinton, e foi graças a ele que, antes de o Mundo pesquisar sobre a cor de um vestido para saber se é azul ou dourado, o Mundo pesquisava as imagens de um tal vestido azul manchado.

Nunca foi um motor de busca excelente, mas era o nosso motor de busca. Na altura em que apareceu, toda a gente que tinha um computador tinha o Internet Explorer e com o passar dos anos, toda a gente que tinha o Internet Explorer tinha o Google, porque não demorou muito até o usarmos para descarregar uma aplicação melhor.

Mas a realidade é que foi esta a nau com que aprendemos a navegar, especialmente as pessoas que sabem o que é o mIRC, o site aeiou.pt ou o Baixaki. Fomos um Vasco da Gama que, em vez de navegar pelas estrelas, navegamos pelos mapas astrais online gratuitos e não descarregamos especiarias, mas descarregamos receitas de um bom caril de camarão. Foi a nossa janela mágica para o Mundo, que nos deu acesso a toneladas de informação e a vídeos e imagens que nunca antes tínhamos visto para, com o passar do tempo, ser a janela de um segundo andar sem elevador, onde aproveitamos para gritar com as pessoas nas caixas de comentários das redes sociais ou para partilharmos notícias de sites de notícias falsas como o LusoPT, que teve o furo jornalístico "Câmara de Lisboa despeja pessoas para construir mesquita e nove freiras ficam grávidas num mosteiro que abriga refugiados", ou o Diariopt, com títulos como "Até hoje, nenhum chinês morreu em Portugal. Não há nenhum registo! Estranho..." Para além disto, este browser permitiu-nos outra coisa fundamental: ver pornografia. Segundo um artigo divulgado pelo jornal "El Mundo", 12% dos sites que existem em toda a world wide web são pornográficos. Para além disso, 35% dos downloads da internet são conteúdo pornográfico, que depois serão certamente guardados numa pastinha do computador com o nome "literatura dinamarquesa do século XVIII" e 8% dos emails enviados diariamente são pornográficos. Imagino que sejam partilhados por colegas de trabalho que, entre relatórios e uma reunião de administração, enviem um email ao tipo da contabilidade com o assunto "Isto é que é uma receita bruta" ou "Ele ficou com o balancete todo assado e ela tem o passivo todo a descoberto". Aliás, é capaz de ter sido essa a motivação para a criação do Internet Explorer. O Thomas Reardon estava em casa, aborrecido porque a papelaria onde comprava a sua "Playboy" estava fechada e o clube de vídeo não o deixava alugar mais cassetes, porque nunca as devolvia rebobinadas, e foi a maneira que arranjou para passar um bom bocado sem essas chatices.

Eu própria tenho boas histórias com este motor de busca: andei meses com vergonha de criar um email porque achava que o hotmail era um site pornográfico. Hoje em dia, só seria embaraçoso se ainda andasse a utilizar um endereço do Altavista ou da Netcabo.pt. Quando nos sites de conversação pediam o nickname, eu escrevia sempre Carter, porque achava que me estavam a perguntar sobre o rapaz loiro dos Backstreet Boys. Enfim, não era brilhante. Mas é o fim de uma era: morreu o Internet Explorer! Viva outro browser qualquer, porque funcionava melhor que o Internet Explorer!

Humorista

QOSHE - Descansa em pasta da reciclagem - Cátia Domingues
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Descansa em pasta da reciclagem

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19.06.2022

Esta crónica devia estar na secção de obituário do jornal. Há uns dias, faleceu uma estrela que se vai juntar ao afamado clube dos 27, aquele grupo de pessoas que faleceram aos 27 anos, do qual fazem parte artistas como Kurt Cobain, Amy Winehouse ou Janis Joplin, que ganhou esta semana mais um membro: o motor de busca Internet Explorer.

Era tão novo. Embora ninguém possa dizer que foi de repente. É que, na verdade, mais parecia que tinha 87, dado que estava sempre a cair, era demasiado lento e andava sempre com cookies nos bolsos. Foi criado em 1995 pela Microsoft, numa altura em que o presidente dos Estados Unidos era o Bill Clinton, e foi graças a ele que, antes de o Mundo pesquisar sobre a cor de um vestido para saber se é azul ou dourado, o Mundo pesquisava as imagens de um tal vestido azul manchado.

Nunca foi um motor de busca excelente, mas era o nosso motor de busca. Na altura em que apareceu, toda a gente que tinha um........

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