O exercício da ação política costuma estar sempre ligado ao cumprimento de uma missão. Missão essa que é de um serviço público voltado para o bem-estar da comunidade. Natural é que existam limites e que o seu escrutínio seja muito exigente.

A velha questão se estamos perante uma ciência ou uma técnica, como nos dizia Max Weber, acaba sempre no dilema se estamos a fazer política por vocação ou antes como uma simples profissão. Nesta confusão acabam por cair muitos daqueles que pensam que ser político pode ser uma carreira assumida para sempre.

A História tem mostrado que não é bem assim. Ela vem-nos dizer que é sempre avisado ter uma experiência profissional, pois só assim podemos assegurar a independência necessária para escolher estar e poder sair da política.

O tempo da política é muito momentâneo e vive da espontaneidade da circunstância. Membro do Governo, autarca ou deputado devem perceber o que significa ser arguido num qualquer processo. A dimensão de ser arguido pode ser medida de uma forma jurídica mas também tem uma dimensão ética ou moral. Isso só se consegue atingir com responsabilidade no impacto da decisão que deve tomar e assumir num resultado traduzido se existem condições para o exercício do cargo político.

Certo é que nisto também se tem de medir o trabalho e o tempo da justiça. Contudo, esse trabalho e esse tempo não podem ser tão longos, confusos e controversos que quando chega ao final já se perdeu o sentido da oportunidade e, muitas vezes, até o próprio arguido já fisicamente desapareceu.

A justiça não pode nem deve trazer para a rua o alarme social sem considerar o risco que corre para o sucesso do processo.

A justiça também merece o escrutínio da opinião pública e não está isenta de ser questionada até porque é exercida em nome do povo. Para que todo o sistema de justiça esteja a salvo de qualquer dúvida, seria importante assegurar que não devem existir portas giratórias e que a transferência para o exercício de determinadas funções públicas/políticas deveria implicar o abandono da magistratura. É isso que se faz nas democracias mais consolidadas.

Até lá, devemos estudar a contradição da prática de salários baixos para quem é eleito pelo voto popular, a que acresce ainda um corte de 5%, que tarda a ser eliminado, ao mesmo tempo que alguns assessores ganham mais do que os titulares eleitos.

Essa incoerência ajuda a um certo populismo que vai possibilitando criar uma classe política pouco preparada e sempre contestada.

Devemos seguir o conselho de S. Lucas, quando se referia aos homens públicos e à sua conduta, "que o que governa se comporte como o que serve".

*Professor universitário de Ciência Política

QOSHE - Política e responsabilidade - António Tavares
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Política e responsabilidade

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17.11.2022

O exercício da ação política costuma estar sempre ligado ao cumprimento de uma missão. Missão essa que é de um serviço público voltado para o bem-estar da comunidade. Natural é que existam limites e que o seu escrutínio seja muito exigente.

A velha questão se estamos perante uma ciência ou uma técnica, como nos dizia Max Weber, acaba sempre no dilema se estamos a fazer política por vocação ou antes como uma simples profissão. Nesta confusão acabam por cair muitos daqueles que pensam que ser político pode ser uma carreira assumida para sempre.

A História tem mostrado que não é bem assim. Ela vem-nos dizer que é sempre avisado ter uma experiência........

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