O regresso da vida e da atividade ao Mercado do Bolhão podemos dizer que é um dos dados francamente mais positivos deste ano. Prometido por muitos, adiado por outros, o Mercado do Bolhão está pronto e aberto aos portuenses e a quem nos visita.

A Câmara Municipal do Porto cumpriu mais um desiderato da sua razão de ser e espera-se agora que não deixe, de novo, degradar, nos próximos anos, o mesmo de forma humilhante.

O Porto merece o seu mercado que a partir de agora vai voltar a ser uma referência ou mesmo um ícone da cidade. Será mais um ponto de referência turística para representar a cidade.

Para mim, o Bolhão tem um passado muito afetivo e próximo. Ainda criança aprendi a lá ir e a assistir a todo aquele movimento de mulheres e homens, uns como vendedores, outros como simples compradores, que se realizava de uma forma coerente e sistemática. Lembro, com muita saudade, as tardes de sábado em que lá ia, com o meu Pai, visitar as vendedeiras e depois parar junto à banca que era das minhas tias. Aprendi então a compreender como funciona a dinâmica dos mercados. Uma lição de economia sem livros mas com muito empirismo. Aquele movimento de pessoas, típico dos tempos de se ir à praça enquanto se discutia a importância da semana inglesa, era a encarnação do genuíno espírito dos portuenses. Era o seu dinamismo, a sua capacidade empreendedora e o seu espírito de liberdade. O Bolhão era a expressão do portuense de antes quebrar do que torcer. Era o símbolo máximo do portuense e do portista juntos com as suas contradições e coerências. Onde se juntavam os que vinham da Ribeira e do Mercado Ferreira Borges e olhavam com receio a modernização que o Mercado do Bom Sucesso trazia. A rede de distribuição era débil, o supermercado, para os ricos, estava a fazer caminho e o frio para proteger os alimentos não abundava até à entrada no Mercado Comum Europeu. Para compreender o Mercado do Bolhão é necessário conhecer a cidade do Porto e os seus habitantes e sentir o pulsar do coração que nos acompanha, desde 1917, há mais de um século.

O Porto enquanto cidade precisava, de novo, do Bolhão porque é o seu caráter que está em causa. O Bolhão faz parte do nosso ADN e sem ele não é a mesma coisa. A cidade fica agora mais completa e pronta para outros desafios. Numa altura em que falamos da necessidade de encontrar uma resposta para as alterações climáticas e para a sustentabilidade ambiental também aí o Bolhão é um exemplo a reter.

Enfim, agora podemos dizer que muitos estudaram e tentaram, Rui Moreira conseguiu cumprir.

*Professor universitário de Ciência Política

QOSHE - O Mercado - António Tavares
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O Mercado

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22.09.2022

O regresso da vida e da atividade ao Mercado do Bolhão podemos dizer que é um dos dados francamente mais positivos deste ano. Prometido por muitos, adiado por outros, o Mercado do Bolhão está pronto e aberto aos portuenses e a quem nos visita.

A Câmara Municipal do Porto cumpriu mais um desiderato da sua razão de ser e espera-se agora que não deixe, de novo, degradar, nos próximos anos, o mesmo de forma humilhante.

O Porto merece o seu mercado que a partir de agora vai voltar a ser uma referência ou mesmo um ícone da cidade. Será mais um ponto de referência turística para representar a cidade.

Para mim, o Bolhão tem um passado........

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