Nos últimos tempos, graças a instituições como a SEDES, a Fundação Francisco Manuel dos Santos ou a Fundação Gulbenkian, temos tido acesso a diagnósticos e propostas para um conjunto de reformas estruturais que Portugal necessita.

A demissão da ministra Marta Temido ou as críticas a outros membros do Governo alertam a consciência dos portugueses para o momento crítico da organização do Estado que estamos a viver.

Desde as reformas que Cavaco Silva implementou nos anos 80, por causa da adesão à Europa, nunca mais os governos fizeram outras reformas estruturais nem tão-pouco mantiveram aquelas que, pela intervenção externa, foram obrigados a cumprir.

Nos últimos 20 anos a governação tem competido maioritariamente ao Partido Socialista, o qual tem procurado não fazer ondas e tentar agradar a toda a gente. Com isto existem dois setores da sociedade portuguesa que têm vindo a ser prejudicados ao longo dos tempos. Refiro-me aos jovens e à classe média. Com efeito, a elevada carga fiscal e os baixos salários têm vindo a estimular a saída dos primeiros para o estrangeiro e o emagrecimento da poupança dos segundos.

As áreas de governação mais críticas são as que envolvem o chamado Estado social, onde o Serviço Nacional de Saúde precisa de complementaridade e a Segurança Social e a solidariedade um novo enquadramento. A atual orgânica do Governo precisa de ser adaptada aos novos tempos, bem como a gestão do território.

Não podemos esquecer que temos há cerca de 150 anos a mesma divisão administrativa cujo reflexo tem os resultados que todos conhecemos.

A falta de vontade política e a ausência de capacidade de atrair pessoas para a ação política com provas dadas nas empresas, nas instituições ou na administração pública acabam por premiar pessoas sem visão ou vontade de risco na necessidade de colocar Portugal na modernização da sua sociedade e na criação de riqueza.

Numa altura em que a geopolítica da crise energética se afirma com impacto e a inflação obriga a União Europeia a medidas excecionais, os tempos parecem exigir cautela e prudência, mas também coragem para adotar medidas.

As recentes mudanças na saúde, com a chegada de Manuel Pizarro e de Fernando Araújo, parecem querer ir no caminho da mudança e transformação que o SNS necessita. Ao mesmo tempo, Cavaco voltou a escrever mais um artigo com a mesma preocupação.

Entretanto, continuamos a falar da nova localização do Aeroporto de Lisboa e do TGV. As soluções repetem-se. As apresentações sucedem-se. O país continua à espera que o Estado seja mais eficiente e que o Governo tenha coragem de não desiludir os portugueses.

*Professor universitário de Ciência Política

QOSHE - O Estado - António Tavares
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O Estado

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06.10.2022

Nos últimos tempos, graças a instituições como a SEDES, a Fundação Francisco Manuel dos Santos ou a Fundação Gulbenkian, temos tido acesso a diagnósticos e propostas para um conjunto de reformas estruturais que Portugal necessita.

A demissão da ministra Marta Temido ou as críticas a outros membros do Governo alertam a consciência dos portugueses para o momento crítico da organização do Estado que estamos a viver.

Desde as reformas que Cavaco Silva implementou nos anos 80, por causa da adesão à Europa, nunca mais os governos fizeram outras reformas estruturais nem tão-pouco mantiveram aquelas que, pela intervenção externa, foram obrigados a........

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