Na política a arte da retórica sempre foi muito importante. Nos parlamentos do século XIX era habitual a longa oração, com impacto nos jornais do dia seguinte, que ajudava a criar a imagem do político. Um grande orador e doutrinador de massas.

Hoje, com as redes sociais e as televisões, torna-se importante saber dizer a frase certa no momento oportuno. Ela vai permitir criar um soundbite que, depois de muito repetido, os cidadãos vão conseguir compreender e absorver.

Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, costumava dizer que uma mentira várias vezes repetida acaba por se tornar numa verdade.

Nesta terceira década do século XXI estamos a viver esta luta frequente entre o que é a verdade e o que é falso que se acaba por traduzir num combate entre a democracia e o autoritarismo.

Vale a pena aqui lembrar Roger Scruton que, em 1984, ou seja há mais de 38 anos, escrevia na "Time" "quem se lembra do Irão? Isto é quem se lembra da vergonhosa debandada de jornalistas e intelectuais para a causa da revolução iraniana? Quem se lembra da histérica campanha de propaganda contra o xá, dos relatos sinistros da imprensa sobre a corrupção, a opressão policial, a decadência palaciana, a crise constitucional? Quem se lembra dos milhares de estudantes iranianos nas universidades ocidentais a absorver com entusiasmo os disparates marxistas em voga que lhes eram fornecidos por radicais de sofá, para um dia liderarem a campanha de motins e mentiras que precedeu a queda do xá?". Basta ver hoje até onde nos levou esse discurso.

Ficamos, pois, num limbo que é aquela fase onde precisamos de descobrir o que é verdade e o que é falso ou mentira. Assim chegamos ao discurso que tem envolvido a discussão parlamentar sobre o Orçamento.

Curioso parece ser que o centro desse discurso seja Passos Coelho e o que ele representou. Esperava-se que, nesta fase da nossa vida democrática, o Governo assuma as suas responsabilidades e a Oposição faça o seu trabalho de casa. Ao ficar refém dessa armadilha, que é aceitar falar de Passos Coelho, o PSD está a branquear a ausência de reformas que o Governo não quer fazer. Lembramos que nos últimos 27 anos o Partido Socialista governou 20. Dos restantes sete, quatro tiveram o programa da troika e três responderam ao pântano. Temos, pois, de ser mais claros e dizer basta para se evitar ter de dizer chega.

Salazar continua a ser responsável, quase 50 anos depois da sua morte, pelos nossos problemas. Do que se livrou, para já, o Marquês de Pombal considerando as consequências do terramoto de 1755.

Por essas e por outras é que Anne Applebaum fala no crepúsculo da democracia.

*Professor universitário de Ciência Política

QOSHE - O discurso - António Tavares
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close
Aa Aa Aa
- A +

O discurso

4 0 4
03.11.2022

Na política a arte da retórica sempre foi muito importante. Nos parlamentos do século XIX era habitual a longa oração, com impacto nos jornais do dia seguinte, que ajudava a criar a imagem do político. Um grande orador e doutrinador de massas.

Hoje, com as redes sociais e as televisões, torna-se importante saber dizer a frase certa no momento oportuno. Ela vai permitir criar um soundbite que, depois de muito repetido, os cidadãos vão conseguir compreender e absorver.

Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, costumava dizer que uma mentira várias vezes repetida acaba por se tornar numa verdade.

Nesta terceira década do século XXI estamos a viver esta........

© Jornal de Notícias


Get it on Google Play