A propósito do Campeonato do Mundo de Futebol, começou uma série de episódios de tiro ao alvo ao qual nem o presidente da República escapou.

A hipocrisia que agora surgiu esquece que há muito tempo existem suspeitas sobre o incumprimento dos direitos humanos e uma certa degradação na organização do mercado de trabalho naquele país.

Tive a oportunidade de visitar o Catar, em 2016, e já nessa altura se estava a trabalhar na edificação dos estádios de futebol e se falava de acidentes de trabalho e de mortes de imigrantes que tinham ido do Nepal, da Índia ou do Paquistão para trabalhar em condições inaceitáveis.

Naquela zona do globo, o Catar não é um caso isolado e vir agora pedir o boicote do Mundial é esquecer o tempo de preparação desta competição. Teria sido possível agir em tempo útil? Sim. Teria resultados? Duvido.

Sabemos que na sessão de abertura comparecerem responsáveis políticos de países periféricos da região. A diferença esteve no presidente Erdogan da Turquia e no secretário-geral das Nações Unidas, ambos talvez procurando encontrar uma solução para o conflito da Ucrânia e da Rússia.

Ao mesmo tempo, quem não se lembra da entrega à Rússia da organização do Campeonato de 2018, já depois de consumada a invasão e a anexação da Crimeia? Existe um documentário na HBO onde se explica muito bem como funciona a FIFA e se mostra como Platini e Blatter não conseguem sair sem mácula na sua explicação destas escolhas.

Contudo, não estamos perante atitudes novas nem novas atitudes. Lembramos que o Mundial de 1978 foi na Argentina dos militares da Escola Mecânica de Buenos Aires e da Junta Militar de Videla. A FIFA tem, pois, longa experiência deste tipo de situações.

O tempo de fazer a crítica ao Mundial do Catar está ultrapassado. Agora, é o tempo de fazer a festa e os mais altos representantes do Estado irão sempre estar presentes tendo como justificação o apoio à seleção nacional.

Afinal, o tempo em que se apelava ao boicote dos jogos olímpicos, como em Moscovo, em 1980, também não impediu a realização dos mesmos nem a presença de muitos países.

Como dizia lorde Palmerston, a propósito de Inglaterra, esta não tinha amigos mas antes interesses. Esta talvez seja a única explicação para se aceitar fazer, nesta altura do ano, no Catar o Mundial de Futebol.

Esperemos que no futuro todos estejam mais atentos à escolha dos locais para a realização de qualquer prova desportiva. Não nos podemos esquecer que estamos na fila, conjuntamente com a Espanha, para organizar um dos próximos campeonatos.

Até lá, porque não fazer uma grelha de avaliação dos países candidatos?

*Professor Universitário de Ciência Política

QOSHE - Catar - António Tavares
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Catar

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01.12.2022

A propósito do Campeonato do Mundo de Futebol, começou uma série de episódios de tiro ao alvo ao qual nem o presidente da República escapou.

A hipocrisia que agora surgiu esquece que há muito tempo existem suspeitas sobre o incumprimento dos direitos humanos e uma certa degradação na organização do mercado de trabalho naquele país.

Tive a oportunidade de visitar o Catar, em 2016, e já nessa altura se estava a trabalhar na edificação dos estádios de futebol e se falava de acidentes de trabalho e de mortes de imigrantes que tinham ido do Nepal, da Índia ou do Paquistão para trabalhar em condições inaceitáveis.

Naquela zona do globo, o Catar não é um caso........

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