Recentemente o Brasil foi a votos. As eleições presidenciais mostraram um país profundamente dividido. Entre Lula e Bolsonaro os brasileiros fugiram de ter de escolher outras alternativas. Na segunda volta, foi juntar para ganhar de qualquer forma. Um país que fica reduzido a estas soluções de liderança política não tem muitas hipóteses.

Constantemente adiado pelo que o sociólogo Jessé Souza chamou de " elite do atraso", a pequena parcela da população que controla a riqueza do país, o Brasil tem evidenciado que nada aprendeu com a sua história. Muito trabalho vai ter Celso Amorim, provável ministro dos Negócios Estrangeiros, para voltar a dar credibilidade no domínio das relações internacionais. No rescaldo destas eleições parece que Sérgio Moro marcou, pela direita, lugar para as próximas, deixando ao centro e à esquerda a alternativa personificada em Alckmin.

Outro exemplo continental mais ao norte, nos Estados Unidos, onde também aí se vai jogando uma luta entre o desejo de falar a verdade que o eleitorado precisa de ouvir e aquela que os responsáveis políticos gostam de dizer. Aí a ameaça Trump está viva.

Na Europa, vamos vendo a chegada, em Itália, de Meloni e esperamos com expectativa ver qual a forma pragmática como vai assumir o exercício do poder. Em França, onde o sistema político partidário tradicional se está a desfazer, foi eleito para liderar a Frente Nacional um jovem com 26 anos.

Por cá, sem ninguém conseguir compreender, as coisas também estão a mudar. De repente, a Iniciativa Liberal procura um novo líder e o Partido Comunista escolhe um novo secretário-geral que nunca conheceu a luta contra o fascismo.

Esta é uma surpresa que só consegue ser ultrapassada pela tranquilidade com que o primeiro-ministro mantém no Governo um secretário de Estado adjunto que parece que já é arguido em dois processos. É certo que não foi condenado em nada, mas é mau para quem grita sempre alto a favor da ética republicana.

Ao mesmo tempo o presidente da República vai dando sinais que preocupam os portugueses ao transformar a mais elevada função do Estado numa rotatividade de comentários e de discursos que ninguém consegue perceber qual o seu alcance e as suas motivações e finalidades.

Afinal, não é só no Brasil que a política vai de mal a pior. Um pouco por todo o lado parece existir muita dificuldade em gerir o imediato da pressão mediática. Nada que uma boa leitura dos clássicos não nos ajude. Nunca se esqueça aquele conselho de Max Weber de que a política pode ser vista como uma ciência ou uma técnica. A resposta, dizia ele, estará na opção entre fazer por vocação ou como profissão.

Professor universitário de Ciência Política

QOSHE - Brasil - António Tavares
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Brasil

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10.11.2022

Recentemente o Brasil foi a votos. As eleições presidenciais mostraram um país profundamente dividido. Entre Lula e Bolsonaro os brasileiros fugiram de ter de escolher outras alternativas. Na segunda volta, foi juntar para ganhar de qualquer forma. Um país que fica reduzido a estas soluções de liderança política não tem muitas hipóteses.

Constantemente adiado pelo que o sociólogo Jessé Souza chamou de " elite do atraso", a pequena parcela da população que controla a riqueza do país, o Brasil tem evidenciado que nada aprendeu com a sua história. Muito trabalho vai ter Celso Amorim, provável ministro dos Negócios Estrangeiros, para voltar a dar credibilidade no........

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