Agustina fazia 100 anos se estivesse entre nós. O Norte, numa singular ideia de agregação, comemorou esse momento. O presidente da República associou-se e, dessa forma, representou o povo português. As autarquias locais, onde teve qualquer forma de relacionamento ou ligação, as instituições da sociedade civil e as universidades juntam-se para prestar homenagem à escritora e à intelectual, à leitora e a quem soube ter uma visão, em forma de romance, do Norte e de Portugal.

Privou de perto com decisores e com políticos, correspondeu-se com outros intelectuais como José Régio, Teixeira de Pascoaes, Eduardo Lourenço ou Jorge de Sena e soube interpretar o sentimento do seu povo.

Acabou por fazer uma parceria involuntária com Manoel de Oliveira para quem forneceu os livros, transformados em argumentos, que acabaram em forma de filmes. "O convento", "Francisca" ou "Vale Abraão" foram só um pretexto para justificar a adaptação. Olhou o Douro e as suas montanhas, respirou a vida em Amarante, sentiu o mar na Póvoa, atravessou, no Porto, as ruas estreitas de granito. Escreveu sobre personagens tão contraditórias como o Marquês de Pombal e Francisco Sá Carneiro. A República soube sempre reconhecer o seu mérito e importância, desde Ramalho Eanes a Marcelo Rebelo de Sousa, dando-lhe as mais altas condecorações do Estado.

Do Porto dizia que não era um lugar mas antes um sentimento que, acrescento, se traduzia numa Nação. As relações de poder aparecem sempre, seja em que forma for a relação, entre um homem e uma mulher numa avaliação muito pessoal que se refletia numa ideia de condição humana. Saramago, o nosso Nobel, dizia que com ela se compreendia um certo Portugal social do final do século XIX e do século XX. Dela disse o cardeal Tolentino de Mendonça que o seu romance "era um instrumento de precisão, como existem poucos, pois está à altura da singularidade, liberdade, tragicidade e assombro da vida". António José Saraiva, em correspondência com Óscar Lopes, disse que a considerava, a par de Fernando Pessoa, "um dos dois escritores verdadeiramente geniais que Portugal produziu no século XX, e creio que todos os outros estão muito, mas muito abaixo deles. Mais, para mim, a Agustina é o maior escritor em prosa de toda a literatura portuguesa".

A sua vontade de saber e procurar encontrar respostas para o mundo do real, onde se misturava com a fantasia, permite ter o seu exemplo como uma referência para as gerações futuras. Agustina permite compreender que é possível divagar sem distrair, conciliar sem magoar, encontrar sem deixar de procurar e viver para além da eternidade.

*Professor universitário de Ciência Política

QOSHE - Agustina - António Tavares
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Agustina

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20.10.2022

Agustina fazia 100 anos se estivesse entre nós. O Norte, numa singular ideia de agregação, comemorou esse momento. O presidente da República associou-se e, dessa forma, representou o povo português. As autarquias locais, onde teve qualquer forma de relacionamento ou ligação, as instituições da sociedade civil e as universidades juntam-se para prestar homenagem à escritora e à intelectual, à leitora e a quem soube ter uma visão, em forma de romance, do Norte e de Portugal.

Privou de perto com decisores e com políticos, correspondeu-se com outros intelectuais como José Régio, Teixeira de Pascoaes, Eduardo Lourenço ou Jorge de Sena e soube interpretar o........

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