No meu último artigo alertei para a sangria de quadros qualificados na Função Pública, em particular de carreiras especializadas.

É inegável que o Estado perdeu capacidade de atração e retenção de talento, devido aos salários pouco competitivos que pratica face ao setor privado.

Se é verdade que as carreiras menos qualificadas são mais bem remuneradas no setor público, o mesmo não acontece no caso dos técnicos superiores. Os profissionais mais qualificados do Estado ganham significativamente menos do que os seus congéneres do privado. O resultado é a incapacidade das instituições públicas para recrutar profissionais altamente especializados e, pior ainda, para conseguir retê-los no médio/longo prazo.

Logo, a proposta do Governo de subir o salário de entrada na carreira dos técnicos superiores, além de já vir tarde e ser financeiramente pouco atrativa (aumentos de pouco mais de 50 euros), não resolve a questão de fundo. Ou seja, o problema não é só atrair pessoas qualificadas para a Função Pública, mas também, e sobretudo, fixar os profissionais mais competentes das instituições do Estado.

Já a valorização salarial dos doutorados, com efeitos não só na entrada de carreira mas também na subida do nível remuneratório, é uma ajuda à retenção de talento, embora a percentagem de técnicos superiores com doutoramento seja baixa. Por isso, o problema mantém-se e tende a agudizar-se com a recusa do Governo de atualizar os salários da Função Pública em linha com a inflação.

Sem uma revisão profunda das tabelas salariais da Função Pública, as instituições do Estado não podem implementar políticas de recursos humanos de longo prazo. Não há meios nem estabilidade para dar oportunidades de carreira aos técnicos superiores, para reforçar as suas competências, para melhorar o seu desempenho, para estimular o seu crescimento profissional e pessoal e, claro, para premiar a sua dedicação.

E esta incapacidade de gerir os recursos humanos no longo prazo reflete-se negativamente na qualidade das instituições e serviços públicos, prejudicando o desenvolvimento do país.

*Reitor da Universidade do Porto

QOSHE - Proposta salarial para o Estado é mero paliativo - António De Sousa Pereira
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Proposta salarial para o Estado é mero paliativo

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12.07.2022

No meu último artigo alertei para a sangria de quadros qualificados na Função Pública, em particular de carreiras especializadas.

É inegável que o Estado perdeu capacidade de atração e retenção de talento, devido aos salários pouco competitivos que pratica face ao setor privado.

Se é verdade que as carreiras menos qualificadas são mais bem remuneradas no setor público, o mesmo não acontece no caso dos técnicos superiores. Os profissionais mais qualificados do Estado ganham significativamente menos do que os seus........

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