O vizinho, um obituário |
"A próxima sou eu", disse-me ainda agora a vizinha do primeiro andar. "Já ninguém me quer aqui, a próxima sou eu" - e espreitava para a casa do homem enquanto, lá dentro, os bombeiros, a polícia e as funcionárias da Santa Casa faziam o silêncio de quando morre alguém.
É assim esse silêncio, cheio de meias-palavras, caído sobre os móveis, e próximo da sensação de que agora nada muda sozinho. De que agora tudo é um pouco sagrado: os pertences de quem morreu, os papéis, as camisas penduradas na porta do armário, os sapatos alinhados no corredor, um calendário com paisagens. Tudo na casa falava a voz do........