Entre o silêncio e a voz

Houve um tempo em que as mulheres escreviam em silêncio.

Não um silêncio escolhido, mas imposto: escreviam entre quatro paredes, com medo de que alguém descobrisse não o que se dizia, mas o simples ato de dizer.

Virginia Woolf falava da necessidade de um quarto próprio, mas talvez falasse ainda mais de um lugar onde a voz pudesse existir sem pedir licença. Antes disso, muitas escreveram sem nome, ou sob nomes que não eram os seus. Outras escreveram apenas para a gaveta, como se a literatura fosse um gesto demasiado íntimo para sobreviver à luz. Em Portugal, Florbela Espanca fez da escrita um território de excesso: amor, dor, desejo, tudo aquilo que, no seu tempo, uma mulher deveria conter. Escreveu a transbordar, pois não cabia no silêncio que lhe era destinado. E, ainda assim, foi muitas vezes lida como........

© JM Madeira