Abril ainda não chegou à Madeira |
Eu nasci em liberdade. Cresci a ouvir falar da Europa, de direitos, de oportunidades. Sou dessa geração europeísta que nunca sentiu o peso de uma ditadura na pele — e talvez por isso tenha ainda mais dificuldade em perceber o que isso realmente foi. Mas sei isto: celebramos esta semana mais de 50 anos desde a Revolução dos Cravos, e esse não é apenas um número bonito para discursos. É uma responsabilidade.
Porque olhar para trás dói. E deve doer.
Recentemente li o O Diário de Anne Frank. E aquilo não é só um livro — é um murro no estômago. Uma família, fechada entre paredes, sem liberdade, a escrever com uma lucidez que envergonha muitos adultos de hoje. E enquanto lia, pensei: não precisamos de ir aos Países Baixos ocupado pelos nazis para encontrar histórias de vidas apertadas. Aqui, em Portugal, durante décadas, havia quem vivesse com “liberdade” no papel, mas com a cabeça e a dignidade aprisionadas. Havia quem crescesse em furnas, em barracas, sem água, sem luz, sem futuro — mas com um regime a dizer que estava tudo........