A febre dos cromos
Há febres que passam com Ben-u-ron. Outras ficam-nos no sangue para sempre. A febre dos cromos é uma dessas doenças doces, incuráveis, maravilhosas, que atacam primeiro na infância e regressam, anos depois, pela mão dos filhos.
Lembro-me de ser miúdo e de ir ao Snack Bar do Sr. Eurico ou à tabacaria ao pé da Casa da Luz, ao lado da Nova Esperança, comprar pela mão da minha mãe saquetas de cromos. Aquele ritual tinha qualquer coisa de sagrado. Não era apenas comprar papel. Era comprar expectativa. Era rasgar a saqueta com esperança, sentir o cheiro a cromo novo e acreditar que, finalmente, ali vinha “aquele” que faltava.
A minha primeira grande caderneta foi de futebol regional. E que mundo era aquele! Ali estavam clubes que hoje parecem quase lendas de uma Madeira que já não existe da mesma maneira: o Bom Sucesso, o Pátria, o Coruja e tantos outros nomes que talvez sobrevivam apenas na memória de alguns, guardados como relíquias num canto afetivo da infância.
Era uma caderneta fantástica. Quase a completei. Ainda hoje a tenho. Faltam-me dois ou três cromos. Dois ou três pequenos vazios........
