Por causa de uma troca de olhares
Naquele tempo, quando eu era jovem, belo e imortal, tinha uma amiga mais velha, talvez uns dez anos mais velha, já não me lembro bem, a quem costumava submeter os meus escritos para apreciação. Ela não gostava nada das coisas que eu escrevia e tinha razão, porque eu só escrevia porcarias. Queria ser escritor – coitado de mim –, mas só escrevia porcarias, embora estivesse convencido de que era literatura de alta envergadura, altamente genial.
Há anos que não vejo esta minha amiga, porque ela emigrou, ou, para ser mais poético, partiu e nunca mais voltou. Perdi-lhe o rasto. Contudo, nunca esqueci os seus conselhos literários. Remetiam todos para a importância da simplicidade.
Uma vez, ela ficou toda arrepiada ao ler um dos meus textos, mais ou menos assim:
Uma porta range algures dentro de casa, mas não é devido ao vento, nem às correntes de ar, porque está tudo fechado e aqui não circula gente. Tão pouco pode ser por ação dos mortos, porque estão todos detidos no outro mundo. Por que range, então, a porta? Algo reside naquela porta, tenho a certeza. Se........
