Deus não joga dados

Ele era um tipo jovem, ainda na casa dos 30 anos, mas estava a atravessar um período em que não sabia a quantas andava, todos os dias bêbado, sempre bêbado, por causa de um desgosto de amor, ou melhor, para ser mais claro e objetivo, por causa do par de cornos que a mulher lhe pusera de repente, sem mais nem menos, de modo que o gajo, coitado, apanhado de surpresa, atordoado com a traição, lixado por nunca ter reparado em nada, nenhum sinal, nenhuma suspeita, deu em beber todos os dias e todos os dias acordava com uma ressaca brutal, a morrer de tristeza e infelicidade.

Ainda por cima, a mulher tinha-o deixado no decurso da Semana Santa, no ano anterior, ou há dois anos – ele já não sabia em que ano tinha sido –, e isso fazia-o sentir-se um Cristo na Terra, condenado a sofrer, a carregar a cruz, a morrer todos os dias pregado nela.

– Estás a anular-te! – Diziam-lhe os amigos. – Tu és novo e inteligente. Não te anules. Tens tanto para dar.

Mas ele não parava de beber, pensando que isso lhe faria........

© JM Madeira