“Contra fluxo não há fundamentos e o gringo não assistiu ao carnaval na Sapucaí”, diz Sr. Mercado
Os investidores brasileiros construtivos são uma espécie em extinção. Curioso que esse fato colide com uma das maiores concentrações de poupança dentro da própria casa do planeta.Como podem tantos indivíduos frustrados manterem boa parte do patrimônio em ativos locais, muitos deles dependentes do cenário local para prosperar? Nevermind, isso é discussão para outra oportunidade.
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Você encontra esses loucos otimistas especialmente no universo do value investing, aqueles que focam na análise micro, nas empresas, tentam ignorar o macro para tomar decisões. Boa parte desses doidos varridos, descrição que escutei de um dos principais deles numa sala de reunião, foi sendo testada ao longo do tempo e, muitos deles, não estão aqui para contar a história.Os demais se adaptaram, passaram a girar mais as carteiras, levaram boa parte do risco de seus portfólios para fora do Brasil. Nunca vi uma estimativa real, esse número não é óbvio, mas eu diria que ao menos 70% da exposição desses nomes está diversificada fora daqui.Existe um momento do inverno que você precisa se adaptar ou não sobrevive. Simples assim, especialmente com o urso do “IPCA+7% isento” solto.Pois bem, por que a bolsa brasileira não para de subir? Os pessimistas estão errados? O Brasil vai engrenar?Não, seguimos como aquele famoso aluno nota cinco, medíocre, sempre passa por aperto no fim do ano letivo. Porém, existem movimentos mais importantes no mundo do que o reality show de adulto da deterioração institucional brasileira.O Brazil (com Z) é apenas um vagão, não é a locomotiva. O que acontece por aqui é capaz de atenuar ou aprofundar esses movimentos.Tenha uma conversa franca sobre a situação do país com um “gringo”, é antropológico: ele(a) não consegue entender o que teria de tão ruim na reeleição do incumbente, sendo que ele já passou do tempo de pedir música ao Fantástico. Endividamento? Talvez nem seja tão preocupante assim, afinal, o mundo todo está devendo até as tampas mesmo, o Brasil não é mais o único consumista irresponsável da praça.Federal Reserve está com toda a “carinha” de que vai cortar juros, com inflação comportada e desemprego subindo. Gabriel Galípolo vai seguir o enredo, desfilando na avenida com o carro da autoridade que construiu no último ano.Pronto. É com essa leitura pragmática, um desejo de não deixar mais as divisas tão concentradas ao alcance das imprevisibilidades de Donald Trump, uma busca por desconto relativo e alguma liquidez, que o estrangeiro passou a ser comprador de ativos brasileiros, em especial, as nossas ações listadas.A bolsa subiu tanto, em especial, nos nomes mais importantes que são pesos relevantes do Ibovespa, que muitos deles já se encontram em três desvios padrões em relação a média histórica de valuation. Em sua maior parte, o local não pegou essa alta.E agora? Ibovespa 11 vezes lucro não é caro?Me parece bem salgado…Mas será que o dinheiro que está comprando a bolsa pensa da mesma forma que você? Faz a mesma conta?Contra fluxo, existem fundamentos?O mercado literalmente se divide literalmente em dois argumentos. Ambos são extremamente fortes e são válidos de serem tomados como tese.De um lado, o tal do debasement trade, essa diversificação de quem não se sente mais 100% seguro em ter seus recursos concentrados nos EUA, anabolizados com um cenário de mundo crescendo mais, juros que devem cair no mapa de forma geral. Do outro, fundamentos que não fazem o menor sentido e muita ação supostamente cara.
A primeira turma, ignora a discussão política e não acompanhou o noticiário recente sobre o tema. A segunda, está preocupada com chances reais de reeleição do incumbente, inclusive já o tomam como favorito.
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Um está acostumado a comprar bolsas com múltiplos elevadíssimos, o outro pede prêmio e conhece tão bem os ativos que não aceita negociar até um determinado ponto. Fora daqui a inteligência artificial está tornando os modelos de negócio sujeitos a uma areia movediça, aqui a velha economia sem muitas novidades e de certa forma até mais “tedioso”.Investidores com horizontes diferentes, que não falam a mesma língua, nem mesmo no bolso. De toda forma, a humildade de saber que qualquer coisa em dólares multiplica por cinco me faz pensar que deveríamos dar ouvidos ao que o USD tem a nos dizer, até por que, não sabemos até quando ele estará no palanque falando dessa forma (e provocando essa recepção de sua audiência).
